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Cachimbo de Água

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Nunca me encontrarás

Francisco Luís Fontinha 8 Jun 17

Nunca me encontrarás porque eu sou a sombra,

Nunca me encontrarás junto ao rio a escrever nos teus lábios de Belém,

Nunca me encontrarás nos jardins de Belém…

Nem nunca me encontrarás abraçado aos braços da maré,

Nunca me encontrarás sentado a pensar em ti… porque, porque deixei de pensar em ti,

Hoje, nunca me encontrarás a desenhar nos teus lençóis os meninos a brincar na praia,

Porque a praia morreu,

Porque os meninos morreram,

Nunca me encontrarás enamorado pelo teu olhar,

Debaixo das nuvens envergonhadas dos finais de tarde,

Nunca me encontrarás enrolado nas tuas mentiras…

E batem à porta…

E espero que não me encontres neste circo ambulante,

Observando as árvores assassinadas pelos teus dedos…

Nunca me encontrarás nesta casa desajeitada e sem porta de entrada,

Que nem uma simples caixa do correio tem para receber as tuas cartas perfumadas,

Nunca me encontrarás a olhar o Sol… porque odeio o Sol,

Detesto o Sol.

Nunca me encontrarás passeando na rua atropelando automóveis famintos,

Tristes…

Tristes desencontros das ancoradas em flor…

Nunca me encontrarás nas tuas cartas nem no interior dos teus livros,

Porque não o quero…

Não quero ser encontrado.

Nunca me encontrarás.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 8 de Junho de 2017

A embriaguez nocturna das sementes

Francisco Luís Fontinha 9 Mai 16

O desgosto da vida.

Sinto a chuva explorando o meu débil corpo,

Que a noite alimenta

Como a morte se alimenta dos corpos,

Há uma película de sémen alicerçada às tuas mãos

De pergaminho,

As palavras fogem-me e sinto-me um inútil desgovernado…

Um barco sem comandante.

O deserto de ser eu,

A areia fina das tuas lágrimas entrelaçadas nos meus dedos,

O silêncio, meu amor,

O silêncio que confunde o horário do meu pulso,

E mais logo se inverte na escuridão,

Sei que estou aqui de passagem,

Ando de rua em rua para te recolher e agasalhar no meu peito…

Mas é-me difícil encontrar-te,

A embriaguez nocturna das sementes nas profundezas da terra,

Tão fundas, meu amor, e tão belas, meu amor,

Estremeço se te encontrar,

Morro de aflição pela tua ausência…

No suicídio do poema.

O desgosto da vida, o corpo despovoado de ossos e pequenos répteis…

Tenho uma cobra abraçada ao meu pescoço,

Um ténue letreiro onde alguém escreveu… FIM.

Não tenho amigos, amigas,

Tenho livros assassinados por mim,

De noite olho todo este amontoado de cadáveres envenenados pela paixão,

E tu, meu amor, e tu sempre ausente deste cemitério de palavras e desenhos,

Apenas eu, meu amor, apenas eu olho para eles…

E vejo o meu rosto sofrido.

O desgosto da vida,

A vida nas pedras húmidas da manhã

Quando a chuva se estende até ao mar,

A penumbra madrugada

No esconderijo do sono,

As minhas mãos, meu amor, abstractas, e não dou conta da vida se escoar em direcção ao Luar,

O segredo que faz com que eu não te encontre,

Percorro esta rua,

Percorro aquela rua,

Com saída,

Sem saída…

E tu, meu amor, sempre no desgosto da vida.

 

Francisco Luís Fontinha

segunda-feira, 9 de Maio de 2016

Um monstro com olhos em xisto

Francisco Luís Fontinha 21 Dez 13

foto de: A&M ART and Photos

 

O pormenor emblemático do corpo composto por luz, pétalas encarnadas e algumas insónias margaridas, o jardim parece um monstro recheado de nozes, vozes, um monstro com olhos em xisto, socalcos, montanhas... e nas veias, o rio

O Douro?

O sorriso das madames com plumas desiguais sobre os ombros sombreados pelas nuvens que a noite constrói depois de todas, ou apenas uma ou outra, luzes de néon vomitarem as palavras encravadas nas montras da cidade, oiço-te vaguear como uma gaivota ferida, doente, oiço-te mergulhar no meu Douro que odeio, confesso... que sempre odiei, vivi para ser uma cidade, com bares, ruas e ruelas, travestis, putas, e donzelas... o Douro enerva-me, desiludiu-me quando o encontrei pela primeira vez... como me desiludiram algumas das mulheres que eu tive

(como desiludiste algumas das mulheres que tiveste)

Como me desiludiram algumas das calçadas empedradas com acesso ao rio, outro rio, um rio com vida, um rio com esqueleto de marinheiro, em cio

O Douro?

A ponte iluminava-se, a ponte voava sobre os espaços exíguos da minha cabeça, acordava com pequenas grandes tonturas, acordava a fumar cigarros proibidos e deitava-me a fumar

Cigarros proibidos?

O Douro enerva-me, desculpem-me, mas amo a cidade do Tejo, amo a ponte, os charros que fumei enquanto choramingava... e depois caía num qualquer bar em Cais do Sodré, depois era madrugada, deambulava pelas ruas mais profundas, mais escuras, mais... mais amadas em mim, depois cambaleava, tropeçava no paralelepípedo e vomitava sons inaudíveis dos carris frios, tão frios como o teu corpo de menina enquanto descia Setembro sobre uma sombra em Trás-os-Montes, odeio-te sabendo que sou prisioneiro de ti, odeio-te sabendo que só serei livre quando

Pegar na tua mão, acariciar-la como se fosse a folha de um dos livros do António Lobo Antunes, ou um dos pares de luvas de lã que tive em miúdo, depois deixei de sentir frio porque as minhas mãos transformaram-se em rochas, pedaços de granito, eles também gélidos, eles também... sós, depois vieram os olhos verdes que a pouco e pouco ficaram sem cor, hoje são daltónicos e precisam de lentes para ler as tuas palavras das tuas cartas que eu te reenviei... e hoje, hoje sinto saudades

Da cidade do Tejo,

A ponte iluminada balançava quando o vento vinha para me levar e sempre que me preparava para partir, não partia, um carro de brincar iluminava a ruela dos candeeiros mortos, movimentava-se por quatro pilhas de um volt e meio, redopiava em círculos, usava a voz das minhas palavras na boca das outras palavras, aquelas que nunca consegui escrever, dizer amo-te é mentira, ilusão, despedida,

Saudades?

Do Tejo,

Dizer desejo-te é mentira, ilusão, despedida,

Saudades?

Do Tejo,

(dedico esta música a todos os meus amigos)

Amigos? Quais amigos... dás-te conta que não tens amigos, e que se vivesses na cidade do Tejo não tinhas um cão com catorze anos, caquéctico, rabugento... mas engraçado, porque só ele percebe porque choro, quando choro...

(qual é a frase?)

O pormenor emblemático do corpo composto por luz, pétalas encarnadas e algumas insónias margaridas, o jardim parece um monstro recheado de nozes, vozes, um monstro com olhos em xisto, socalcos, montanhas... e nas veias, o rio, a heroína em ebulição sentia-se e no tombar das árvores doidas, como sonâmbulos corpos emagrecidos havia sempre alguém que não regressava,

(ai a frase... a frase...)

O Douro?

A límpida água dos sonhos e da esperança voltam à panela de pressão e evaporam-se nas avenidas encantadas dos guindastes com braços em aço e lábios em pergaminho,

Hoje temos beijos,

(quer uma ajudinha... senhor Francisco?)

Hoje temos beijos, saudades e nada mais do que isso... e redopiava em círculos, usava a voz das minhas palavras na boca das outras palavras, aquelas que nunca consegui escrever, dizer amo-te é mentira, ilusão, despedida,

Saudades?

Do Tejo,

(diga comigo senhor Francisco... “Com os voos nocturnos da menina Amélia a sobremesa adormece sobre a mesa-de-cabeceira”)

Hoje temos beijos, saudades e nada mais do que isso... e redopiava em círculos, usava a voz das minhas palavras na boca das outras palavras, aquelas que nunca consegui escrever, dizer amo-te é mentira, ilusão, despedida,

Saudades?

Do Tejo,

E dizer amo-te é pura loucura, desilusão... sei lá que mais...

(à escolha)

E diziam-me que aqui existiam verdejantes barcos com asas em porcelana... pode lá ser...

E é, e é... é assim desde que partiste...

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 21 de Dezembro de 2013

Elas as bailarinas

Francisco Luís Fontinha 18 Dez 13

foto de: A&M ART and Photos

 

Imaginas-me?

descreve-me como és se ainda não o és

isto é

imaginas-me imaginando caminhar mar adentro

escrever na areia os verbos emagrecidos das pétalas doiradas

descreve-me

e imaginas-me... como um barco que se afoga no Oceano

imaginas-me como um náufrago sufocado com imensas palavras

desenhos

ruas

portas e janelas

e bancos de jardim

 

Belas

as flores

e os canteiros das intermináveis manhãs de Outono...

 

Elas

as bailarinas sem sono

imaginas-me?

candeeiros de papel

fios

meias...

cobertores imaginados quando me imaginas...

imaginas-me... deitados

o silêncio entrelaçado na tua mão

o beijo entalado nos teus lábios

imaginas-me?

eu... eu apaixonado?

 

Belas

as flores

e os canteiros das intermináveis manhãs de Outono...

 

Imaginas-me sendo o Sol?

mulher criança velho doente?

pigmeu cansado ausente...

sombra árvore e presente

imaginas-me... farto das palavras

dos versos

dos poemas e das... putas

parvas...

traiçoeiras madrugadas

nocturnas drogadas as tílias em chá...

e eu... esperando que me imagines...

… descreve-me como és se ainda não o és.

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 18 de Dezembro de2013

Malabarista de primeira classe... diplomado

Francisco Luís Fontinha 26 Jul 13

desenho de: Francisco Luís Fontinha

 

Desenhaste-me nas esfinges manhãs de Inverno

procuraste uma tela vazia

construíste-me em mendigo acrílico com coloridos ombros de porcelana

pintados à mão,

 

(Fui o que nunca quis ser

sou tudo aquilo que tu nunca quiseste que eu fosse...)

 

Desenhaste-me em murais que ultrapassavam os edifícios em ruína na cidade das gaivotas

sentei-me em ruas onde tudo se vendia

o corpo flores drogas álcool e amores

livros e papel de embrulho

desenhos e merdas sem sentido

porcarias vãs

vadias entre as pernas alicerçadas aos tambores de choque

envaidecias-te

eras nobre como um donzela puta de adorno...

e os jardins cansavam-se de ti como velhos sorrisos

sonâmbulos das ínfimas janelas

e entrava-nos na sala de jantar o enfeitiçado mar...

 

Um cheiro horrendo

barcos vomitando saliva esbranquiçada

lágrimas

e muitas estrelas

todas elas

embriagadas,

 

Desenhaste-me como se eu fosse um boneco de palha

um cabrão mal vestido

de fato

gravata

e sapato bicudo afiado reluzente como um espelho da feira popular...

chorudas mulheres de açúcar

dormindo em roulotes como gazelas em sexos murchos que os finos pinheiros de Carvalhais...

lançam

deixam ficar sobre a tua pele...

todas as palavras de adeus...

Adeus

Até nunca mais me desenhares nos murais das montanhas de aço,

 

Desenhaste-me nas esfinges manhãs de Inverno

procuraste uma tela vazia

construíste-me em mendigo acrílico com coloridos ombros de porcelana

pintados à mão,

 

(Fui o que nunca quis ser

sou tudo aquilo que tu nunca quiseste que eu fosse...)

 

Desenhares-me invisível

sem saberes quem sou

como penso

vivo

se tenho sonhos

consegues perceber os meus lamentos?

 

Fui tanta porcaria...

cavaleiro

donzela

prostituto

pintor

escritor

abelha tonta tonta como ela... ela tão bela...

e tudo porque me desenhaste nos murais das montanhas de aço,

 

E poeta não o sou

talvez o seja quando se apercebe em mim um silêncio de loucura

devaneio

os peneirentos pássaros que as arcadas do desassossego escondem

constroem e inventam insónias em papel como pobres flores de arremesso...

 

Desenhares-me em toda a porcaria livre

nas calçadas

nas ruas e ruelas

cansadas...

desenhas-me como se eu fosse um esqueleto de amêndoa

suspenso nas três horas da madrugada...

nas calçadas

ruas

e ruelas

sou

nunca o fui

desejo-o como se ele fosse um abutre de asas cinzentas,

 

Sou

fui nunca

poeta pintor escritor porque nunca deixei de o ser...

malabarista de primeira classe... diplomado.

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

Cidade de vidro

Francisco Luís Fontinha 24 Jul 13

Desenho de: Francisco Luís Fontinha

 

Há uma cidade com janelas de vidro

tem ruas e pessoas

há uma cidade com jardins invisíveis

e marés transparentes... que nem todas as pessoas

as pessoas dessa cidade

… há uma cidade

que nem todas as conseguem olhar

como persianas marteladas em papel hortelã,

 

Há marinheiros

filhos da cidade

vagabundos dos mares inavegáveis como rochas íngremes nas estradas de brincar...

há uma pobre cidade com braços de porcelana

e palmeiras

e pássaros...

há uma cidade em penumbras madrugadas

uma cidade embriagada,

 

Há uma cidade que renasceu do teu olhar sobre a ponte inoxidável...

uma cidade com seios prateados e coxas de plátano...

há conversas perdidas nas sombras desta cidade

uma cidade com beijos de lábios em néon imaginário

e pássaros

e palmeiras

há uma cidade com janelas de vidro

e toalhas de linho... sobre a mesa nocturna dos sexos débeis das flores perdidas na calçada...

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

foto: A&M ART and Photos

 

As personagens coabitam na maternidade dos sonhos, vivem e dormem, ambas, dentro de um exíguo espaço do tamanho de uma algibeira minguada, penumbra e vazia, imagino-os colados ao tecido onde provavelmente alguém deixou o local exacto para as janelas e pelo menos, já não digo mais do que isso, uma porta de entrada, quintal, não, é impossível, porque não existe terreno suficiente no meu cérebro, e não vivo, porque as personagens umas ontem, outra hoje, e talvez amanhã... morrerá a réstia esperança dos segredos com cabelos castanhos e olhos verdes,

imagino-os

Ai sentados, ai coisa nenhuma, ai... deitados como âncoras de marfim quietas, formadas e bem vestidas, na formatura matinal, e todos os dias, a todas as oito horas da manhã... um pão e uma caneca com leite, depois, acordavam os complementos vitamínicos, como cigarros, vodka e às vezes, eles, tombavam como árvores quando a tempestade aparece e sem qualquer aviso, batem à porta,

quem é?

Correio,

ou é ou é, quase sempre é para receberem, porque para darem alguma coisa, não, nunca utilizam o correio, pelo menos, falo por nós, por mim, por ti

E eu, a infeliz dos dois,

E ele, o desgraçado com óculos e seios postiços, e ele, que em dia normais é ela, ou, ele, não interessa, e ele caminha dentro de nós as duas, cansadas, como animais, eles, abrindo, encerrando, as portas de entrada e as janelas de saída

da algibeira minguada?

De emergência, tinham escrito numa das paredes do sono, havia a planta do exíguo espaço, coisa pouca, “quebrar em caso de emergência” e nós

batemos, batemos... e a dita coisa não quebrou, ficou a olhar-nos, ficou...

E nós, como vós, entre as mulheres delas e os homens nossos, voávamos como pássaros loucos, no exterior complexo com grandes de ferro nas janelas, ele

eu escrevia na traseira das portas de madeira, desenhava na porta da casa de banho, inventava o mar na parede do corredor, e ainda nos sobrou tempo suficiente para assaltarmos a cabine telefónica estacionada no Hall de entrada, éramos também como os pássaros

Loucos embrulhados em drageias,

e os pássaros transformavam-se em cobras, e pela manhã, lá andavam eles a passear no corredor, tinham aproveitado o sonho, e devido ao diâmetro ínfimo, elas, conseguiam, e atravessavam as grades

E comiam-nos, e bebiam-nos, até chegar o medico e obrigar-nos a levantar, e levantávamos-nos, e entre as cobras, fumávamos os primeiros cigarros do dia, os primeiros cigarros da sobriedade, e

desistíamos de viver percebendo que tínhamos deixado a vida suspensa na rua dos plátanos e as personagens coabitam na maternidade dos sonhos, vivem e dormem, ambas, dentro de um exíguo espaço do tamanho de uma algibeira minguada, penumbra e vazia, imagino-os colados ao tecido onde provavelmente alguém deixou o local exacto para as janelas e pelo menos, já não digo mais do que isso, uma porta de entrada, quintal, não, é impossível, porque não existe terreno suficiente no meu cérebro, e não vivo, porque as personagens umas ontem, outra hoje, e talvez amanhã... morrerá a réstia esperança dos segredos com cabelos castanhos e olhos verdes,

Imagino-os...

imagino-me deitado sobre o mar à espera que o barco da loucura me venha resgatar, levar-me para terra, e se possível, ao menos isso, cremarem-me

Como Gogol fez com o manuscrito de “Almas Mortas”... e apenas cinzas, de mim, de ti, e de vós... entre paredes e verniz até à mesa da sala de jantar, penhorada, hipotecada,

imagino-me e imagino-os

Comendo amêndoas recheadas com chocolate.

 

(ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

Sabia-te quando terminavas nos sonhos

Francisco Luís Fontinha 28 Abr 13

foto: A&M ART and Photos

 

(ao Rei dos Sonhos)



Sabia-te quando terminavas nos sonhos e caminhavas no corredor da saudade, ouvia-te dançar sobre o mosaico porcelana da piscina em forma de rua, perdida, tu, corrias em direcção às escadas de acesso da rua dos pequenos beijos de porcelana, dormias entretanto, profundamente, pensava eu, quando olhava nos teu olhos cerrados as imagens reflectidas de uma louca e antiga máquina de slides, o picotado desenhado numa fina película de plástico retirada a um saco incolor de supermercado, finíssima, ela não maior do que um carro de linhas, que servia de carreto que com uma manivela de arame fazia rodar as imagens em frente de uma lâmpada, dormias, dormias, ainda dormes, e eu, permanentemente às voltas com a manivela a inventar imagens picotadas numa tira de plástico com uma agulha esquecida juntamente com o dedal da minha mãe,

a inventar imagens desde 1976,

Fundiam-se-lhe lâmpadas que só posteriormente percebíamos a escuridão das equações diferenciais que tínhamos para resolver, elas, como eles, poisavam sobre a mesa da sala de jantar, ficavam lá, perdidas, fazíamos-las esquecidas, e às vezes, poucas, só com a ajuda de drageias, elas, as equações (macho e fêmea) acordavam do sono incrédulo que Deus nunca acreditou e aos berros

preguiçosos,

preguiçosas,

Sabia-te quando terminavas, acordavas, abrias as janelas do teu corpo, e deixavas entrar a luz que o espelho do guarda-fato absorvia da velha máquina de slides, havia imagens dentro de ti, e só quando te acariciava os seios, e só quando te beijava os lábios de sonâmbulo cravo vermelho, e só

que desenhos mais esquisitos, como corredores, pássaros, migalhas de aço e sobras de vento,

E só quando deitava a minha cabeça nas tuas coxas, sentia eu, sentias tu, as imagens todas, as de ontem, as de antes de ontem, e as imagens de infância, saíam do espelho do guarda-fato, sentavam-se um pouco sobre a mesa-de-cabeceira, apenas para nos contemplarem, e só depois, começavam a entrar em ti, e no fim, eu entrava também, e tinha como missão, encerrar a porta, hermeticamente, e dentro de ti, saltava, brincava, dormia, como tu

a inventar imagens desde 1976,

Como tu, dentro de uma piscina, caminhando a passos apressados como se a rua estive quase a fechar-se, e a carapaça de tartaruga aos poucos, em pequeninos milímetros de cada vez, até todo o tecto baixar, e tu, desapareceres, em corrida, dentro de água com o cheiro a saudade, com o silêncio dos cobertores suspensos nas pálpebras tuas, que dormias, sossegadamente como um anjo louco, de caligrafia como pequenas mandíbulas de areia, como eu, desesperado procurando por ti, dentro de água, dentro de uma caixa de sapatos

onde funcionava uma pequena máquina de slides,

Com refrigeração,

a fundir lâmpadas desde1983,

E tubos de néons sobre a porta de entrada, “sabia-te quando terminavas nos sonhos e caminhavas no corredor da saudade, ouvia-te dançar sobre o mosaico porcelana da piscina em forma de rua, perdida, tu, corrias em direcção às escadas de acesso da rua dos pequenos beijos de porcelana, dormias entretanto, profundamente, pensava eu, quando olhava nos teu olhos cerrados as imagens reflectidas de uma louca e antiga máquina de slides, o picotado desenhado numa fina película de plástico retirada a um saco incolor de supermercado”, e uma campainha de serviço, um gajo feio, como eu, devidamente fardado a preencher os impressos para a atribuição de subsídios para a construção de máquinas de slides, e eles

apenas com uma caixa de sapatos, uma lâmpada, duas pilhas de volte e meio, alguns fios eléctricos, um pedaço de vidro que fazia de lente, e cerca de cinquenta centímetros de plástico com cerca de seis centímetros de largura, e um carrinho de linhas, e claro, a manivela em arame... e um pedaço de pano que apelidamos de lençol,

Com refrigeração?

e desenhos pacientemente desenhados com uma agulha,

A fundir lâmpadas desde1983,

pacientemente eu, a perder parafusos desde Janeiro de 1966.

 

(não revisto; parte deste texto não é de ficção e aconteceu com o meu amigo de infância - infelizmente já falecido - JÚLIO)

@Francisco Luís Fontinha

Gemidos fingidos das janelas de vidro

Francisco Luís Fontinha 18 Mar 13

Imagino-a sentada à minha espera, acendo a luz da despensa, procuro sem precisar qualquer coisa desnecessária, sal, ou açúcar, arroz, talvez polpa de tomate em lata, talvez nada, pretextos, manias, esconderijo onde me sento, esperando que ela

Vou embora,

Volto a apagar a luz, saio da despensa, vou à janela

Batem à porta, imagino-a a voltar, e finjo não estar, como antes o tinha feito,

Da janela, sem a abrir, oiço o desalinho dos automóveis caminhando pela calçada em paralelo que me fazem recordar as noites de embriaguez quando as calçadas voavam conjuntamente com o vento

Ora essa, não acredito!

Verdade, nós cambaleávamos porque os paralelos voavam, saltitavam, e nós, tropeçávamos como tropeçavam as minhocas antes de colocadas no anzol do desgosto, prendíamos grãos de trigo no anzol, e atirávamos-lo para o quinteiro da vizinha, depois, depois era só puxar o fio de pesca e uma galinha acabava de nos sair na rifa,

Acreditas agora?

Vou-me embora, levantar âncoras e baixar velas,

E quando abria a janela subia até nós o intenso cheiro dos resíduos sobrantes da noite passada, aquela onde os paralelos saltitam e cambaleiam, nunca os percebi, nunca os quis perceber, como também não percebo a existência de mim em calções quando me olho no espelho da praia, e eu ando lá, e eu, eu

Não

Andar lá,

Eu morri numa manhã de Sábado, em frente ao Tejo, em Novembro, e enquanto esperava que me transportassem..., perdi-me numa feira de velharias, perdi-me dentro dos livros, dos cachimbos, alguns mais idosos do que eu, e sinceramente, não me recordo de ter passado pela porta da tempestade cinzenta, lembro-me de um velhíssimo chapéu de soldado da ex-URSS, mas da porta

Via os vidros em pedaços, ouvia os estalido dos candeeiros da rua contra os automóveis que circulavam, entre paralelos inquietos, ressacados, de fome nos lábios, senti sobre os ombros as cordas que seguram as roldanas que puxavam as lanças para os guerreiros do Céu, e ouvia-a

Esperava por mim, eu, eu escondia-me dentro da despensa, acendia a luz, fingia procurar coisas, insignificantes, como quando não me apetece falar com ninguém invento buscas à minha biblioteca à procura de livros que ainda não foram editados, de livros que existem apenas dentro da cabeças

Deles e delas,

E eu,

Finjo,

Invento buscas, chamo os bombeiros, dou participação na polícia, digo-o, invento, que desapareceu de casa de seu pai, vestia gabardina negra (de noite) e calças de galga (polidas no tempo), calçava umas sandálias em tiras de couro, e a última vez que o viu

Diz que foi junto aos livros de Luiz Pacheco,

Ou

Não,

Minto,

A última vez que o vi foi junto dos livros de A. Lobo Antunes, foi, tenho a certeza, e desde então, nunca mais

Apareceu,

Nunca mais

Me atormentou,

E nunca mais

Apareceu-me à janela quando a escuridão entra casa dentro como flores tombadas pelas tempestades enceradas com gotas de água e bolas de sabão, lá fora, o cigano com uma máquina esquisita (fogareiro com sujidade) dá à manivela e aos poucos

Mãe

Sim filho

Olha

Pipocas,

E afinal ele ali tão perto, tão perto, perto

Que nunca acreditei que fosse ele, em gemidos fingidos das janelas de vidro.

 

(ficção não revisto)

Francisco Luís Fontinha

Nvunda

Francisco Luís Fontinha 21 Mai 11

(Hoje dei-me conta que estou a mais neste País, hoje percebi que a angustia que sinto ao acordar, hoje percebi que a minha nunca adaptação, tudo isso, tudo isso porque eu nunca devia ter vindo de Angola. Hoje percebi que preciso de regressar urgentemente à minha terra, e mudar de vida. Logo que tenha uma oportunidade de regressar, acreditem que não hesitarei um único segundo; decidi regressar a Angola)

 

Vou à procura de mim em todas as ruas da cidade, e todas as ruas da cidade encerradas para obras, reabrirmos o mais breve possível, fim de linha, eu cansado e com o camuflado a pingar lágrimas, sangue que aos poucos se evapora da minha pele, e nos meus olhos, nos olhos passeiam-se grãos de areia que na praça de táxis esperam pela minha sombra, e onde está a tua sombra, a minha, sim, sim a tua sombra, a minha sombra longe do meu corpo, a minha sombra junto ao capim, e o teu corpo, o meu corpo aos poucos desce pelos socalcos do douro, sinto o cheiro do rio, sentes, sim sinto, e depois, e depois já sem forças, e depois vejo o meu corpo despido do camuflado, vejo o meu corpo a afundar-se no rio, e o rio, o rio engole-me, acreditas que o rio sempre me quis, e o capim, o capim adormece no silêncio da noite, e sabes, e sabes que as gaivotas brincam com a minha sombra.

 

Vou à procura de mim em todas as ruas da cidade, vais, vou, ainda te recordas do menino que acreditava voar, sim claro, e todas as noites olho pela janela, e sabes, sim diz, vejo sempre o mesmo cavalo branco com uma mulher vestida de branco, eu menino ao portão do quintal a fabricar desejos, e ela, ela passava por mim, ela passava por mim e nem se dava conta que o meu corpo lá, o meu pequenino corpo pendurado no portão, o meu corpo ainda invisível, o meu corpo transparente à espera da chuva do fim de tarde, vou à procura de mim e não me encontro, eu não lá, o meu corpo deve passear-se por alguma lixeira de Belém, talvez, talvez agora âncora do navio que me trouxe, vieste de navio, sim, sabes, não, diz, foi a viagem mais linda que fiz, o mar, eu dentro do mar à procura da terra prometida, e os camuflados, que tem, os camuflados levavam-me a passear pelo barco e davam-me presentes, vinham felizes, vinham para casa, eu, tu, e eu triste, a minha casa lá, a minha sombra lá, lá junto ao capim em brincadeiras com as gaivotas.

 

E todas as ruas da cidade encerradas para obras, reabrirmos o mais breve possível, fim de linha, aguarde um momento por favor não desligue, tim tim tim, só mais um momento, aguarde por favor, tim tim tim, só mais um momento, não desligue, e o meu corpo onde andará hoje, a esta hora, hoje agora, só mais um momento, não desligue aguarde, tim tim tim, só mais um segundo, peço desculpa pela demora, não faz mal, lamentamos mas o seu corpo não cá…

 

 

 

(texto de ficção)

Luís Fontinha

21 de Maio de 2011

Alijó

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