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Cachimbo de Água

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Porque hoje é sábado

Francisco Luís Fontinha 20 Abr 19

Porque hoje é sábado, não vou resistir às tuas palavras doces.

Porque hoje é sábado,

Não vou tirar fotografias, nunca mais.

Porque hoje é sábado, vou queimar todos os meus livros,

No quintal,

E saciar a minha sede com o fumo das palavras tuas…

Porque hoje é sábado,

Vou mergulhar as minhas mãos no xisto junto ao rio.

Porque hoje é sábado, vou festejar, vou partir de viagem até ao infinito…

Mar.

Porque hoje é sábado, vou alimentar-me de pedacinhos de papel,

Pequenos nadas,

Pequenos silêncios que só os teus lábios sabem construir…

Porque hoje,

É sábado,

Vou desenhar o beijo na tua solidão.

Só hoje.

Porque hoje é sábado.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

20/04/2019

Sábado

Francisco Luís Fontinha 9 Mar 19

Hoje, Sábado, eu, não fiz nada,

Rigorosamente, nada.

Hoje, eu, Sábado, levantei-me às seis e trinta minutos,

Dei a injecção à minha mãe, depois, fumei dois cigarros virgens,

Completamente, virgens,

E, deitei-me.

Dormi.

Tomei banho. Fui tomar café, buscar as compras…, ir ao cemitério,

Hoje, eu, Sábado, não fiz nada,

Rigorosamente nada.

Almocei, tomei café, e voltei a adormecer…

Acordei, lanchei…

E escrevo estas palavras,

Hoje, eu, Sábado, não fiz nada,

Rigorosamente, nada.

Hoje, eu, Sábado, sinto na boca as palavras salgadas, tristes, distantes,

E, rigorosamente, nada.

Hoje, eu, Sábado, não fiz nada.

Os pássaros, os teus pássaros, todos estacionados nas tuas mãos de areia fina,

Branca, como a do Mussulo,

E, regressa a noite.

Pinta-se o dia de tristeza, não me ouve, ele, como sempre,

Rigorosamente, nada.

Nada.

Sábado, eu, hoje, acordei cedo, deitar-me-ei tarde e acordarei cedo,

Amanhã, Domingo, a voz enrouquecida pela tempestade,

E sinto o mar, dentro de casa, só, só, como eu,

Hoje.

Rigorosamente nada.

Ao final da tarde,

As palavras que há pouco experimentei, salgadas, tristes e sós…

Rigorosamente, nada,

Hoje.

Sábado.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 9/03/2019

E sábado..., e sábado os ASSASSINOS...

Francisco Luís Fontinha 19 Jul 14

Sábado,

a metralhadora do silêncio começa a disparar,

uma mulher vestida de negro, caminha vagarosamente para o altar,

alguém a espera, alguém a ama, e só alguém a pode desejar,

sábado,

hoje não há palavras de escrever,

hoje só uma ténue lâmina de sémen suspensa na janela da cidade com chaminés de vidro,

ela dispara, ela mata... e depois, depois cessa... depois... depois abraça-se às feridas que choram,

hoje, sábado, a metralhadora do silêncio começa a disparar...

a tarde escoa-se através de uma conduta de beijos, e há os cabelos da noite enrolados no vento,

a mulher leva um livro na mão, uma bala que lhe dita o futuro não existente,

ela deita-se sobre a lápide da solidão, e espera, e espera...

 

Espera que um coração de papel acorde da ressaca de sexta-feira,

 

Sábado,

um dia invisível,

chuvoso,

a cidade com chaminés de vidro, arde,

e sente,

os estilhaços no corpo de uma criança,

 

ASSASSINOS!

 

Sábado prometido,

hoje, hoje, hoje o que posso eu dizer...

que invento mulheres vestidas de negro?

que há metralhadoras apontadas ao meu peito?

Sábado...

ASSASSINOS!

 

Os meninos,

brincam no centro do furacão,

os calções fendidos, os calções de chocolate baloiçando nas pernas íngremes da madrugada,

e sábado..., e sábado os ASSASSINOS...

saciam-se à volta de uma mesa redonda, recheada de comida,

e os meninos, morrem,

e os ASSASSINOS... e os ASSASSINOS escondem os sobejantes calções de chocolate,

e ninguém, e ninguém os consegue parar...

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 19 de Julho de 2014

musseque das trevas

Francisco Luís Fontinha 11 Dez 13

foto de: A&M ART and Photos

 

não me toques porque o Sábado não existe

não quero entrar dentro de ti... porque o vento me leva para os telhados de zinco

os pregos mergulham na saudade do menino traquina

saltita entre sandálias e latas vazias...

brinca

chapinha nas águas tranquilas os sonhos nocturnos do musseque das trevas

não toques na minha mão

não querias ser a caneta que dorme

e se desfaz nas minhas tristes lágrimas

não digas sim aos meus abraços

porque... o Sábado não existe

e a neblina... parece cansada nos ramos bravios das madrugadas em flor

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 11 de Dezembro de 2013

não dormem mas... também não sonham

Francisco Luís Fontinha 5 Dez 13

foto de: A&M ART and Photos

 

Tristemente invadido pelas análises clínicas dos perfumados jardins das jangadas embebidas em cianeto e outras

Escadas?

Palavras, não o sei, não o consigo perceber, talvez este verso alimentado pela inveja encontre dos triângulos dos dias tristes as algas masturbadas dos rios envenenados pelo doce odor da paixão, do cinismo...

As escadas...

Nunca tive Sábados, e à Sexta-feira tínhamos Açorda de Marisco, pão, vinho e sobremesa,

A sério?

Tristemente invadido pelos machimbombos da insónia, escondia-me de ti, debaixo da mesa no quintal das bananeiras, mangueiras e outras … eiras

Carvalhais,

Sexta-feira,

Eles não sabiam que tínhamos almoçado, traziam-nos coisas estranhas, comíamos tardíssimo porque acreditávamos que havia fantasmas que roubavam a comida dos pobre, e as tuas mãos abraçavam-se à minha cintura rechuxuda, hirta... fria como a geada de hoje à noite, e dizias-me que todas as árvores são como os pássaros quando são velhos...

Não voam, não voam mas também não andam, não bebem... e também não pagam, e também,

As escadas?

Sexta-feira,

Tristemente...

Aquele beijo que ficou esquecido sobre a mesa-de-cabeceira, aquele sorriso impregnado na vidraça estilhaçada da janela com fotografia para o quelho, aquele abraço perdido dentro dos cobertores da inocência, aquele beijo, aqueles teus lábios em pétalas que o desejo sobejou das tardes perdidas, aqueles livros poeirentos abandonados na estante do corredor, aquele teu alicerçado seio sobre a minha solidão, claro... imortal na cama em tardes de neblina, imortal no jardim dos clandestinos Domingos...

Sábados à tarde,

Sexta-feira à noite,

Aquele beijo, aquela melodia adormecida sobre os abajures da melancolia, aquele dia com palavras de luar, aquela madrugada com talheres em prata, e corpos, corpos de nata...

E ouvíamos o beijo esquecido das gaivotas em cio, e ouvíamos os tristes carris da liberdade mergulharem nas montanhas de papel como lagartas e outros bichos, coitados

Procurando,

Coitados...

Caminhando..., o beijo esquecido das gaivotas em cio, procurando as cinzas do casebre abandonado depois de partirem todas as árvores do destino que acompanhavam as alegres palavras comedidas pelas mãos de giz... aquele divã onde te deitavas, e eu, eu sobre ti entranhava-me nos teus gemidos invisíveis dos xistos borboletas em voos de andorinha, coitados...

De nós...

Deles...

O beijo esquecido das gaivotas em cio, o barco apodrecido no cais que alguém pintou nas paredes do velho bar de marujo embriagado, dizes-me que não, e eu, eu sinto-me dentro de ti como se eu fosse o teu feto indesejado, aquele que não queres, nunca quiseste... a gaivota dilacerada nas velhas nuvens de oiro... imortal no jardim dos clandestinos

Domingos...

Sábados à tarde,

Sexta-feira à noite,

E não bebem, e não pagam, não dormem mas... também não sonham,

As escadas?

Tristemente tristes, tristemente... sós, sós, talvez só às vezes tristemente sós...

O beijo dilacerava-se, o beijo derretia-se como chocolate, a Açorda de Marisco, uma simples sopa de hortaliça, pão e o vinho, tudo pela módica quantia de

Os beijos pareciam migalhas de pão abandonadas sobre a mesa de ébano, cheirava a naftalina, a toalha pertencia aos objectos escondidos como as pratas que deixaram de existir desde eu criança, como as porcelanas e todo o marfim, tínhamos falido, e vivíamos como Príncipes imperfeitos vestidos de carrancudos criados sem ofensa para vossemecê meu grande amigo

As escadas?

E pela módica quantia de dois beijos e uma sexta-feira...

Açorda de Marisco, uma simples sopa de hortaliça, pão e o vinho, tudo a estrear, excepto o vinho, que esse, esse já era em quarta ou quinta mão,

Sexta-feira, amanhã, a estrear, o beijo esquecido das gaivotas em cio, o barco apodrecido no cais que alguém pintou nas paredes do velho bar de marujo embriagado, dizes-me que não, e eu, eu sinto-me dentro de ti como se eu fosse o teu feto indesejado, aquele que não queres, nunca quiseste... a gaivota dilacerada nas velhas nuvens de oiro, e eu, eu inventado Açordas de Marisco, sopa, pão... e o vinho, e o vinho parecendo água depois das tempestades de...

Sexta-feira, Sábado, e Sexta-feira temos

Açorda de Marisco... e vinho, e vinho, tristemente... só. Só.

(onde está a sobremesa, raios?)

 

 

(não revisto – ficção)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 5 de Dezembro de 2013

sábado eu só sempre aqui além como uma serpente

Francisco Luís Fontinha 1 Dez 13

foto de: A&M ART and Photos

 

sábado

os caixões da insónia silenciados na parada dos sonhos

os ventos longínquos das manhãs que dormiam na tua mão

não mais dormirão

evaporaram-se como pequenas gotículas de suor depois da tempestade

solidão

palavra desconhecida que o meu corpo absorve como mandíbulas metálicas

os olhos cansam-se como se cansam as pernas de cristal dos azulejos brancos

sempre

desde que partiram as gaivotas teus abraços para destinos inventados

viagens sem limite

 

sábado

a solidão

eu só

sempre

os caixões da insónia

a serpente

e mente

ela

ele

as ruas numeradas que habitam a cidade dos reumáticos assentos de prata

fidelidade

feliz

 

infeliz

o sábado

à saudade

aplique depois de seco

mergulhar supérfluamente como Dálias em jardins de pedra

e eu minguado

e eu

eu triste

porque sábado

eu

 

(apenas eu

como uma cadeira onde te sentas e sinto a tua pele...)

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo. 1 de Dezembro de 2013

Gajas de incenso

Francisco Luís Fontinha 20 Dez 12

(a factura: é em seu nome ou em nome do burro?)

 

Não esqueço

sábado à noite vou entrar em ti

escrever nas tuas entranhas vísceras de primavera

o silêncio

com pingos de chuva

não esqueço

escrever

e as gajas de incenso

 

mergulhadas no papiro húmido da manhã sem acordarem

vivendo viver o sofrimento amor

não amando

amar

escrever

nas gajas de incenso

as palavras de encantar

que os barcos de sábado à noite

 

encalham na areia fina dos testículos

que dos tectos descem

os minguados tropeços de saliva

há na boca dele

ela entre parêntesis

abraçada ao ponto final

travessão

vírgula repetição paragem cardíaca ao pequeno-almoço

 

vírgula

ponto

paragrafo ordinário na tua mão não esquecendo

o calendário

vírgula

ponto final obrigado pela vossa presença

amanhã será outro dia

 

não esqueço sábado à noite vou entrar em ti

repartir-te em pedacinhos

palavra por palavra

letra por letra

sílaba por sílaba

não esqueço

sábado

quando as fotografias acordarem e dentro de ti eu

 

absorto

voando nas tuas vísceras entranhas cavidades

de primavera

a primeira classe das florestas virgens

absoluto em zero complexo tu eu nós os três pássaros da miséria

absorto

a primeira música no primeiro poema do primeiro desgosto de amor

não vieste desististe partiste dentro do oceano tua solidão

 

sábado

esperarei por ti

debaixo da ponte

trago os cigarros a corda de nylon e uma gaivota de esperma

e sei que nas tuas coxas

sábado

os cigarros

míseros sofrimentos que a noite constrói em folhas de papel...

 

(poema não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

Alijó

 

Porque amanhã é sábado

Francisco Luís Fontinha 23 Set 11

Porque amanhã é sábado

As perdizes deitam-se na almofada da noite

E do rio que corre para o mar

Levantar-se-á uma tulipa na alvorada,

 

Um canganho é cuspido pela geringonça

E abraça-se ao chão lavrado da manhã

As horas adormecem no mostrador embaciado…

E porque amanhã é sábado,

 

As sandálias das ervas daninhas

Mergulham nas sombras de cigarros acesos,

O vento vem e traz sementes de girassol

E crescem sorrisos junto ao néon,

 

Levantar-se-á uma tulipa na alvorada

Em cada cansaço de mim

O mar que acolhe o rio…

Do mar que olho o jardim,

 

Porque amanhã é sábado

As perdizes deitam-se na almofada da noite,

E nas minhas mãos embrulhadas em papel de cetim

Um papagaio suspende-se no teto das nuvens…

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