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Cachimbo de Água

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Sombras de aço

Francisco Luís Fontinha 12 Jan 16

Há arte abstracta no teu olhar

Uma sinfonia de cores

Que se diluem na madrugada

Se cruzam na avenida mais obscura da cidade

E se deitam em cada tela adormecida pela paixão,

 

Há palavras nos teus lábios

Sílabas extintas pelo vulcão da saudade

Casas ignoradas

Árvores envenenadas

Nos solstícios do desejo,

 

Há silêncios no teu corpo

Medusas embriagadas pelo cansaço

Sombras de aço

Sobrevoando o teu cabelo

Que o vento assassinou…

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

terça-feira, 12 de Janeiro de 2016

A morte entre parênteses

Francisco Luís Fontinha 28 Mar 15

Não entendo os teus cabelos em cerâmica doirada

Como as andorinhas desnorteadas

Entre árvores

Entre filamentos de saudade

Sobre a cidade

Dos sonhos

Acordar

O espelho da vida

Em liberdade condicional

Espera

Caminha

A pedra ensanguentada

Das ruelas em flor

O ruído ensurdecedor dos morangos

E das plásticas cabeças de alfinete

O fato prisioneiro no guarda-fatos

O meu esqueleto

Dentro do fato

Os sapatos

As meias

E todo o resto

Em chamas junto ao rio

Não entendo o perfume dos teus lábios

O sorriso que se alicerça em ti

E me sufoca

Quando acorda a noite

E a noite me transporta

Para a carta sem remetente

Oiço-te

E não percebo porque brilham os teus cabelos

Dentro do cubo de gelo

Da paixão

Em aventuras

Entre árvores

Entre filamentos de saudade

Saudade…

Dos sítios obscuros com pulseiras de vidro

Cacos

Sílabas

Na seara do cansaço

Atrevo-me a olhar a lua

E não querendo ofender ninguém…

A lua suicida-me contra os pigmentos do prazer

Não sei

Como poderia eu saber

Se as candeias se extinguiram nas marés de prata

Os sonhos

Os sonhos acorrentados ao silêncio

O medo de amar

Não amando

E comer

Todas as pétalas da rosa embalsamada

Tão triste

Eu

Neste cubículo de lata

Sem janelas

Sem… sem nada

Como uma simples folha de papel

Desesperada

Sobre a secretária

Eu mato-a com a caneta

Escrevo palavras

Palavras

Que só o mar consegue entender

E… escrever

Nos meus braços

Dentro de mim há buracos negros

E as equações da relatividade

Sós

Entranhando-se no camafeu alicerce do sofrimento

Como eu sabia

Antes de a madrugada bater-me à porta

Olá bom dia

Meu amor…

Hoje não

Volte para a semana

Não

Não quero comprar nada

Hoje

Porque sinto a solidão

Nos arrozais

E nos pássaros

Que os homens constroem

Enquanto o poeta morre…

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 28 de Março de 2015

fotografia

Francisco Luís Fontinha 23 Fev 15

Desenho_A1_071.jpg

 

(desenho de Francisco Luís Fontinha)

 

 

o triturador do sono

mergulhado nos teus olhos incandescentes

tens nos lábios o pingente beijo

iluminado pela saudade

entre quatro paredes

paredes

sós

nem porta

janelas

cubículo de prata

onde habitam todos os cheiros da cidade...

as abelhas do amanhecer saboreando a tua pele de mel

como se tu

janelas

fosses um pedaço de pólen

ou

nem portas

e nas paredes

as frestas da insónia

sombreadas

e acorrentadas

às sílabas enforcadas

do velho barco de esferovite...

que em criança eu brincava.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Segunda-feira, 23 de Fevereiro de 2015

Equação de amor

Francisco Luís Fontinha 1 Dez 14

Arcaico silêncio que finge adormecer nas minhas mãos

saboreiam o teu corpo pincelado de luz

como a névoa pálpebra de papel voando sob o púbis da madrugada

a mendicidade dos teus lábios quando o meu espelho se parte em teu sorriso

o verme poema enrolado nos teus seios...

em curvilíneos cansaços

traçando lágrimas de sémen no triângulo nocturno da insónia

da janela... o teu perfume em pequeníssimas lâminas de suor,

 

Uma equação de amor morre na quadriculada folha embriagada,

 

Arcaico silêncio que finge...

minhas mãos indiferentes à parábola do teu cabelo

se existes... é porque pertences às telas invisíveis do amanhecer

como andorinhas ancoradas às cordas da solidão

que ardem

e se evaporam...

 

Uma equação de amor morre na quadriculada folha embriagada,

 

E tu não percebes que há na matemática a paixão secreta do desejo

que na ardósia tarde junto ao rio

o teu corpo pertence-me na plenitude simetria de uma canção

que te revoltas

nos meus braços

como uma criança em distantes birras...

desenhando círculos na areia

ou... ou escrevendo sílabas numa rua sem saída.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Segunda-feira, 1 de Dezembro de 2014

Desenhos embriagados

Francisco Luís Fontinha 26 Nov 14

A mecânica do esqueleto de pedra

em movimento uniformemente acelerado,

no abismo das amendoeiras enlouquecidas

adormece um sorriso cansado,

triste,

porque habitam nos lábios de uma gaivota os desenhos embriagados,

a mecânica...

do sexo quando emerge das sílabas tontas o orgasmo da palavra,

deita-se na fina folha de papel não escrita,

branca como o silêncio... como o silêncio da mecânica...

que grita,

e chora nas encostas perdidas,

na montanha do Adeus,

brincam as crianças das planícies nocturnas do infinito,

descobrem o beijo num qualquer espelho sem nome,

e a cidade entra em ebulição quando uma janela se alimenta do cortinado colorido,

a mecânica... não sabe o que é o amor,

a física quântica alicerça-se ao esqueleto de pedra,

e as mandíbulas ínfimas de espuma...

correm nas veias do poeta,

tenho no meu quarto um veleiro ensonado,

sem bandeira,

sem... sem Nacionalidade,

como a saudade...

sempre desalinhada com os carris invisíveis da paixão.

 

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 26 de Novembro de 2014

Insígnia da paixão

Francisco Luís Fontinha 22 Nov 14

Queimaste a insígnia da paixão no sonífero adeus da tempestade,

dormes profundamente só...

e te alimentas das insignificantes metáforas da saudade,

trazes nas lágrimas uma canção por escrever,

um poema se ergue na tua mão,

e sem o saberes...

habitas na calandra encaixotada do sofrimento,

não sei se algum dia serei teu,

não sei... não sei se lá fora há sol ou escuridão,

se é dia,

noite...

ou... uma mistura de tons com odor a infância,

um barco encalha nos teus seios,

transpiras... gemes as sílabas do prazer,

esperas pelo nascer da madrugada,

quando hoje não haverá madrugada,

quando hoje... não acontecerá nada...

se é dia,

noite...

ou... ou um pincel disparado pela espingarda da solidão,

e se entranha no teu sorriso...

e no entanto,

queimaste a insígnia da paixão,

como quem apaga um cigarro depois de te amar.

 

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 22 de Novembro de 2014

Criança desalmada

Francisco Luís Fontinha 7 Nov 14

O fantasma espelhado da tua voz

caminhando na lareira do desejo

um cortinado de luz em direcção ao nada

tristes são as tuas palavras

acorrentadas ao silêncio

o falso destino

as imagens melódicas dos teus lábios

voando no vulcão da saudade

e da cidade regressam a mim os tentáculos espinhos de aço

que se alicerçam no meu peito...

a dor imaginária quando sei que a tua sombra se confunde com a madrugada

ainda por nascer...

criança

criança desalmada

criança flor no jardim em chamas...

o fantasma espelhado...

alimentando todas as sílabas do cabelo invisível

palmilhando montanhas e searas nocturnas

subindo as escadas do sótão sem coração

e embriagado

beijo

o teu

o primeiro...

o último

fim...

fim...

como a vida de um homem nas margens de um rio.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 7 de Novembro de 2014

Tempestade

Francisco Luís Fontinha 3 Nov 14

Pindéricos esqueletos sobrevoando o pólen embriagado

marinheiros raquíticos encostados ao mar salgado

esta vida de sangue entranhada nas mandíbulas da cidade

este vento envergonhado que se enforca nos meus abraços

os sinos da ferrugem engatados numa ruela quadriculada

a tarde que se afunda

e mata

nos estilhaços de uma espingarda

as mulheres procurando carícias debaixo das palmeiras

um poeta encardido

sentado numa cadeira...

e ninguém... e ninguém olha a ponte de nylon com cabeça de xisto,

 

O poeta enlouquece

e transforma-se em pedacinho de poeira

não escreve porque lhe falta a esplanada de Belém...

cerra hermeticamente os olhos de areia

e... e ninguém...

e ninguém olha a ponte de nylon

que o rio embala nas noites de neblina

os pindéricos esqueletos consumindo vodka falsificado...

os apitos de um drogado

quando os carris de aço desaguam em Cais do Sodré

e o magala desgovernado

tomba... tomba suavemente no pavimento florido,

 

O céu em chamas dançando nas espinhas do almoço

o guardanapo esbranquiçado poisado sobre o clitóris da esperança

gemem as sílabas nas ruínas que a tua voz devastou

canso-me das marés

e desta cidade sem escala

não encontro o fim do sacrifício

que o poema me obriga...

cambalhotas e palhaços encerrados numa tenda clandestina...

solto-me

e grito

e saltito...

como o encharcado luar no centro da tempestade...

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Segunda-feira, 3 de Novembro de 2014

O vazio

Francisco Luís Fontinha 15 Jun 14

foto de: Stéphane Spatafora Photographe

 

O vazio,

e falsas esperanças mergulhadas no buraco da solidão,

o vazio que se traveste de dor, o silêncio que embrulha o sofrimento,

este rio que são as tuas mãos, perdidas no musseque anónimo da paixão,

as crianças saltam até agarrarem as flores que habitam o tecto da noite,

vazio, sisudo... sentido proibido de amar,

o vazio imprevisto, descontínuo... o vazio agreste dos olhos da estátua de granito,

há sombras que embriagam os teus seios de porcelana e eles, eles a construir sorrisos desde...

 

(desde o último luar)

 

O amor,

também ele, vazio,

pobre,

ângulo obtuso quando alimentado pelo púbis da madrugada,

 

(hoje não corações, hoje não beijos – a esplanada recheada de vampiros)

 

O vazio,

homem rude, homem dos sete ofícios, o homem mendigo que descobriu a falsa esperança,

o fantasma,

o vazio dos telhados que a cidade ignora, despreza, que a cidade... não quer,

 

Que cidade é esta?

 

Vazia,

sem pessoas, sem imagens, sem..., sem nuvens,

o sombreiro carnívoro que devora todas as palavras que a tua pele transpira,

gotículas de poesia descendo o teu corpo, até que a falsa esperança ilumina o teu cabelo,

e sei que deixou de viver,

hoje... nada, a cidade provocadora, a cidade dos teus suspiros,

uma porta que se encerra, e morre, e levita,

a lanterna do Adeus, sempre acesa, sempre pronta a suicidar-te com os beijos de alvenaria cansada,

 

(hoje, hoje não)

 

Que cidade é esta?

 

(desde o último luar)

 

Que deixei de amar a espuma dos espelhos de amanhecer,

e sem o perceber,

descobri que a falsa esperança... que deixei de amar, não existe mais,

o vazio, o vazio corpo da sílaba encarnada...

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 15 de Junho de 2014

Asas pinceladas

Francisco Luís Fontinha 2 Mar 14

foto de: A&M ART and Photos

 

Há asas pinceladas nos teus verdes olhos de andorinha,

uma colmeia de palavras emerge da solidão nocturna,

há de ti as marés envergonhadas, tristes, marés... marés dos telhados de vidro,

sinto-te cambaleando sobre as nuvens cinzentas das janelas amarelas,

o jardim deixou de sorrir,

e partiu em direcção ao mar,

o amor de ti em mim... sem mim, uma coisa estranha, amarga, diluindo as ditas palavras castanhas,

há asas pinceladas,

há asas a arder sobre os teus ombros de melancolia,

e sei que no fundo do mar, vives, dormes... e passeias-te nua como ventos de nortada,

acendo a luz da paixão, e ao meu lado apenas uma imagens de néon...

gemendo sílabas e bebendo carícias de madrugada.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 2 de Março de 2014

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