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Cachimbo de Água

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Saberás perdoar-me?

Francisco Luís Fontinha 10 Abr 11

Saberás perdoar-me quando o vento entrar pela janela, e na rua as ruínas, pedacinhos de ti vaguearem pelo pavimento e das tuas penas brancas silêncios de nada acordarem na madrugada, saberás perdoar-me quando a janela se fechar, quando nos vidros alguém escrever fim, e no soalho junto à praia o teu corpo esconder-se nas algas, enrolar-se nas sombras, e da maré, da maré acordar o monstro que sou eu, com asas, e uma cabeça de vidro, três pernas de madeira e braços de cetim…

- o mar espera-me junto à janela virada para a noite, e nas pernas sinto o medo de caminhar, estou cansada, vagueio pelo pavimento em pedacinhos de ti, das tuas mãos de madrepérola o meu rosto se sacia como um seixo junto à ribeira pronto a ser manuseado, e eu deitada no soalho junto à praia, quase no fim das horas, quando os segundos se esgotam na madrugada, e não fim, não mar, o recomeço da noite à espera de um novo dia, o teu cão impaciente com o luar, e tu,

Saberás perdoar-me quando o vento entrar pela janela, e na rua as ruínas, os caixotes do lixo atulhados à minha espera, e eu também lixo, encaixotado no contentor da saudade, também eu vagueio pelas ruas no trilho de uma janela aberta junto ao mar, olho os barcos que fazem amor no cais, amam-se, o corpo em suor coberto pela neblina, os lábios em fogo percorrendo cada milímetro quadrado do sexo à mercê de um desejo, os barcos enlouquecidos, os barcos esquecidos na noite, e pela janela chamas-me, envias-me um silêncio, e eu,

- e eu à espera que o cigarro se apague e o teu corpo poise nos meus braços, e eu à espera que nos teus lábios cresçam jasmins e na tua boca a janela para o mar, os barcos cansados, os corpos misturados com o sémen da noite, e eu à espera que o teu corpo entre dentro do meu, sorria quando um petroleiro entra na barra, e eu à espera,

E eu à espera que o cigarro se apague e o teu corpo poise nos meus braços, deitar-te na cama devagarinho, e na rua as ruínas, pedacinhos de ti vaguearem pelo pavimento, e eu à espera que a tua roupa comece a voar pela janela em direcção ao mar, e em ti o meu corpo à procura do teu, no divã é noite, os pássaros novamente pendurados nos teus braços, os corpos misturados com o sémen da noite, e eu à espera que o teu corpo entre dentro do meu, e a minha cabeça de vidro iluminada pelo luar…

- Saberás perdoar-me quando o vento entrar pela janela,

E a janela encerrada, fechado para obras, remodelação do nosso espaço comercial, seremos breves, pedimos desculpa pelo incómodo, saberás perdoar-me quando o vento entrar pela janela, e da minha mão de madrepérola uma rosa acariciará os teus lábios, os teus doces lábios…

 

 

(texto de ficção)

FLRF

10 de Abril de 2011

Alijó

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