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Cachimbo de Água

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O delírio fantasma da paixão

Francisco Luís Fontinha 11 Jun 17

O delírio fantasma que a paixão oferece nas noites de melancolia,

Vivo nesta cabana encerrada e sem alegria,

Entre livros e papelada,

Entre copos e corpos sofridos na madrugada,

Tenho nas veias o teu nome,

E na algibeira as réstias da fome…

Do mendigo ancorado às esplanadas de lata,

O Domingo termina na sanzala…

No capim brincam as minhas mãos de fada…

Que um papagaio de papel inventou na alvorada,

Sinto neste meu corpo desajustado da realidade

O vício sintético da falsidade…

O orvalho clandestino,

O sorriso do menino…

Na praia do Mussulo,

Só e abandonado,

Só e amedrontado,

Só nos rochedos pincelados de palavras mortas

Pela caneta do poeta,

Fracassado,

Pateta…

O delírio fantasma

Dos arraiais da felicidade,

Foguetes, e pó de enxofre na claridade nocturna do sentimento,

Sofro, sofro e guardo no sorriso a tua despedida…

Sangrando as avenidas

Desta cidade perdida,

Um diário disperso, um livro desassossegado,

O vazio buraco negro do desgraçado…

Mendigo da multidão,

Haja alegria e pão na eira,

Que no corpo da feiticeira

Argamassam os lábios da solidão,

Não durmo, meu amor, deixei de dormir, meu amor…

E passo a horas a desenhar,

No teu corpo, meu amor,

O delírio fantasma da paixão.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 11 de Junho de 2017

Madrugada entre parêntesis

Francisco Luís Fontinha 8 Jun 15

Não sabias que a noite dormia no teu colo,

Sorrias pincelados lugares

Enquanto as estrelas desapareciam da tua boca,

A madrugada suspensa na tua mão,

A luz do teu olhar…

Silenciando-se,

O teu coração irá cessar de caminhar junto ao mar,

Os pássaros poisarão nos teus ombros,

Acordará o dia

E a madrugada entre parêntesis…

Extingue-se como se extinguiram todas as sanzalas da tua vida,

E todos os abraços da tua noite.

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Segunda-feira, 8 de Junho de 2015

Sentinelas da noite

Francisco Luís Fontinha 27 Mar 15

Tenho no corpo

o sentido proibido do silêncio

os ossos choram todas as madrugadas

das lágrimas

as palavras

e nas mãos o feitiço do amanhecer

querer

não quero

ser

sem o saber

a leveza insignificante dos meus braços

suspensos no sorriso do luar

não acredito

acreditar

nas nefastas sentinelas da noite

o amor camuflado

caminhando no capim

as pálpebras cinzentas

misturadas nos cigarros embriagados

que só o fumo consegue desenhar

no triste pavimento da sanzala

oiço a sombra da paixão

voando sobre os coqueiros

o papel colorido

inventando poemas

nas nuvens cortinas do meu aposento

os livros

os livros são como homens em cio

cansados

cansados das sílabas em flor

e do rio

onde adormece a ponte do desejo

não desejando

desejar

não desejando

desejar o perfume do mar…

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 27 de Março de 2015

estas mãos de ninguém

Francisco Luís Fontinha 3 Jan 15

(desenho de Francisco Luís Fontinha)

 

 

estas mãos se cruzam no Oceano tua pele

mergulhando nas tuas pálpebras de madrugada

estas mãos te amam

e acariciam

nas tardes envenenadas pelo desejo

estas mãos de ninguém

com todos os cheiros da sanzala

estas mãos de ninguém

com todos os sons do amanhecer

que só o perfume de uma rosa consegue desenhar

e... e escrever

nas sombras do mar

estas mãos se cruzam no Oceano tua pele

que o barco do meu amor suavemente desliza...

como todas as palavras soltas

como todos os vinhedos suspensos no sorriso de uma enxada

estas mãos te amam

e acariciam

estas mãos de ninguém

que o tempo come

e despoja as suas cinzas no cemitério nocturno das gaivotas sem nome...

estas mãos

estas mãos se cruzam

quando todas as luzes se apagam e todos os corpos morrem...

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 3 de Janeiro de 2015

O sonâmbulo diplomado

Francisco Luís Fontinha 26 Out 14

Habito este túnel íngreme dos ossos argamassados

pareço um sonâmbulo diplomado

sem braços

sem pernas...

sem... sem sonhos

habito esse teu corpo desgraçado

sobrevoando a minha sanzala

sombreando o pecado,

habito este túnel desgovernado

galgando as montanhas da solidão

gritando

gritando... “o amor é uma roda dentada com dentes enferrujados”,

ai estes sons que se entranham nas minhas asas de plátano envelhecido

este túnel sem luz

ou... saída para o infinito

habito

em ti

como se fosses uma gaivota poisado junto ao Tejo

me olhando

me dizendo... “o amor é uma roda dentada com dentes enferrujados”.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 26 de Outubro de 2014

Sanzala de lata

Francisco Luís Fontinha 27 Set 14

Liberta-me

desassossega-me esta insónia fervilhante

que atormenta as minhas mãos

e me proíbe de escrever

liberta-me quando começar a madrugada

e lá fora

ninguém

ninguém para me ver

ninguém para me observar

quero ser a noite vestida de luar

quero ser o socalco que nunca se cansar de olhar...

o rio

e as pessoas que o rio engole e mata

liberta-me

liberta-me deste cansaço desengraçado

que habita nesta sanzala de lata.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 27 de Setembro de 2014

Bufunfa...

Francisco Luís Fontinha 23 Ago 14

Procurava nas penteadas espigas de milho,

o sabor amargo de amar,

deitava-me sobre o chão frio do granito ensanguentado da eira,

pincelava o luar de madrugada,

e procurava...

adormecia sem o perceber,

porquê?

e se era aquele o momento de o fazer!

o sino ouvia-se ao longe,

o horário deixou de fazer sentido,

tal como o calendário,

procurava... e nunca as encontrava...

 

As chaves do espigueiro telintavam numa algibeira furada,

que servia de esconderijo a um corpo emagrecido,

cansado,

e ferido...

 

Havia lágrimas nos olhos das frestas do espigueiro,

a madeira envelhecida... rangia... parecia um homem desiludido com a vida,

acordavam-me para o jantar,

e fazia de conta que não ouvia...

nem sentia...

o vento soprar,

e eu procurava... e ele em pequenos círculos... me abraçava,

acreditava que das pálpebras dos pinheiros fugiam as estrelas em papel,

acreditava que à resina regressavam as plumas fluorescentes das meninas de cartão...

e nunca vi o mar acorrentado ao granito ensanguentado da eira,

nem os barcos, nem os marinheiros com odor a sexo,

e no entanto... havia uma mulata que dançava na eira só para mim,

 

O zinco da sanzala gritava,

e um menino em calções chorava grãos de pólen,

não havia abelhas para me consolarem...

nem... nem mangueiras sombreadas nas mãos dos mabecos enfurecidos com o meu sorriso,

 

Bufunfa...

o kimbundu poético da paixão dos pássaros,

o voo silencioso dos dentes de marfim sobre a mesa da sala de jantar,

uma ténue luz que iluminava o capim que jazia nas bermas da estrada,

caminhava, caminhava... e não tocava no granito ensanguentado da eira,

brincava com os papagaios de papel inventados nos seios de um coqueiro,

cintilavam em mim as gazelas, os elefantes... e ao meu lados os entristecidos marinheiros...

e procurava...

adormecia sem o perceber,

porquê?

e se era aquele o momento de o fazer!

Levantar-me do chão frio do granito ensanguentado da eira.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 23 de Agosto de 2014

Noites de Sexta-feira...

Francisco Luís Fontinha 1 Ago 14

Tenho no meu peito um fóssil,

uma lâmina de aço laminado,

tenho no meu peito uma cidade, uma mulher que habita nessa cidade, uma lâmina...

que me estrangula, que me absorve,

e engole,

nas noites de Sexta-feira...

 

Há um triste olhar que me acompanha desde as ruas de Luanda,

olhava as sanzalas, inventava grãos de areia no Mussulo,

desenhava peixes nos machimbombos com coração de granito,

ouvia, às vezes, um grito...

e engole,

nas noites de Sexta-feira,

 

Há um apito quando oiço a voz do silêncio,

uma criança com mãos de sisal,

deitada na eira de Carvalhais,

tenho no meu peito um fóssil,

um lâmina de aço laminado,

uma luz esculpida na calçada do abismo...

havia entre nós um muro amarelo,

havia ao longe um rio embriagado,

eu, eu sorria,

eu, eu descia... até que os tentáculos do desejo me levavam,

e quando regressava,

o apito... apitava...

 

O vício vomitava sílabas com sabor a alumínio,

e eu, eu dançava sobre uma nuvem de nada,

que me estrangulava, que me absorvia,

e engolia,

nas noites de Sexta-feira...

… e percebia o significado de liberdade.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 1 de Agosto de 2014

O tambor do desassossego

Francisco Luís Fontinha 25 Jul 14

Quando o tambor do desassossego entoa no coração da sanzala,

há uma palavra reescrita na pele húmida do amanhecer...

leio... leio SAUDADE...

 

Sento-me junto ao pequeno charco acabado de nascer,

puxo de um cigarro,

e finjo ver o mar a regressar da sombra das mangueiras,

as pequeníssimas películas de cacimbo alicerçam-se aos meus dedos,

ao longe, mulheres... e fogueiras,

e missangas de medos,

saltitando nos braços cansados de um esqueleto de papel,

oiço o bater fulgurante do zinco conta a solidão de um menino chorando,

 

Um dia a guerra o levará,

sua mãe morta rezará no altar da areia branca do faroleiro de pedra,

os meus dedos minguam quando um cadáver de insónia poisa no meu cigarro...

e espero... e não regressa o mar,

desce um corpo de prata dos coqueiros envelhecidos,

há uma palavra reescrita na pele húmida do amanhecer...

leio... leio SAUDADE...

e adormeço sem me apetecer,

 

Em criança brincava com silêncios e um velho triciclo em madeira,

acreditava nas flores,

acreditava que um dia..., que um dia voava como os pássaros,

envelheci, e o meu cigarro terminou quando um paquete de rebuçados atracou em mim,

transeuntes com pesadíssimos caixotes em madeira,

choravam...

e círculos de espuma saltavam à corda no cais dos caixotes em madeira...

perdi-me, e hoje... e hoje sento-me junto ao pequeno charco acabado de nascer,

 

O mar não regressará nunca,

 

E,

 

Quando o tambor do desassossego entoa no coração da sanzala,

há uma palavra reescrita na pele húmida do amanhecer...

leio... leio SAUDADE...

 

E leio sofrer!

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 25 de Julho de 2014

A tua voz não pode gritar!

Francisco Luís Fontinha 29 Jun 14

A tua voz me entristece,

quando sei que deixou de existir em mim o verbo amar,

a minha cidade, lá longe, tão longe... que nunca a conseguirei alcançar,

dormir nela,

acordar cedo, e abrir a janela,

a janela que tenho no meu peito,

há gaivotas, e há um corpo que envelhece,

a tua voz... a tua voz me enlouquece,

e no entanto, sou obrigado a viver acorrentado a este silêncio sem nome,

a esta vergonha de perder sem ser encontrado,

... não sendo habitado,

nesta sanzala de papel...

 

Este esqueleto de gesso que carrego e me deito,

sem perceber que há lábios de mel, que há lábios de desejo..., lábios consumidos pela fogueira de beijar,

esta voz me entristece,

como a água do rio que se evapora,

e levita,

e procuro-te, e procuro-te...

e me dizem... aqui ninguém mora,

aqui... aqui ninguém... chora,

 

Aqui é proibida a escrita,

 

Os tentáculos do amor,

os seios de uma flor antes de acordar,

as cordas de nylon que ancoram a tua dor...

ao cais de embarcar,

 

A tua voz me entristece,

o teu corpo vacila na tempestade de sonhar,

o calendário não cessa de correr...

e come-te em pedacinhos,

a tua voz enfraquece,

e transforma-se em versos desesperados,

versos odiados,

versos de escrever...

a tua voz me entristece,

antes de alguém desenhar no tecto das tuas pálpebras a madrugada,

ainda não zarparam os barcos da minha infância,

ainda... ainda não encontrado o verbo “AMAR”...

 

A tua voz não pode gritar!

 

A tua voz é um feitiço,

uma nuvem vagueando sobre o Tejo,

a tua voz é um marinheiro mórbido, um marinheiro embriagado na esplanada do beijo...

há cadeiras apaixonadas, há sorrisos travestidos de amanhecer,

a tua voz não pode cessar, a tua voz... não pode morrer,

a tua voz... não é o meu verbo “AMAR”...

que... que deixou de ser,

que... que deixou de sofrer...

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 29 de Junho de 2014

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