Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Cachimbo de Água

MENU

prateleira dos sonhos

Francisco Luís Fontinha 9 Nov 15

sentir que aos poucos o teu corpo se despe de mim

e se despede em frente à mórbida madrugada

sentir que perdi as estrelas e as palavras

o sorriso

e a alvorada

dentro de um pequeno livro

tão fino como a tua pele desnuda

em pergaminhos desejos

o sorriso

e os beijos

e a alvorada

sentir que aos poucos

eu

não sou nada

como os outros

os que habitam as prateleiras dos sonhos

que vão procurar na insónia

a solidão

e o esquecimento

desse corpo

meu

despedido

despido

arrependido e suspenso no céu…

as cordas do inferno acreditando na misera gratidão

sentir que sim

sentir que não

sou

capaz

sentir que não sou capaz de despedir-me desse corpo camuflado numa qualquer sanzala

entre zinco e sombreadas flores

entre cigarros e pontes de luz

e belos amores

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

segunda-feira, 9 de Novembro de 2015

O álbum de fotografias dos teus ossos

Francisco Luís Fontinha 1 Nov 15

A morte das palavras num qualquer musseque da insónia, as cinzas dos poemas disfarçadas de sanzala sem dono, destino ou incómodo de sobreviver à pobreza, o exilado texto além-fronteiras, os gritos, os gemidos da noite entre siderais e abstractos retractos e o espelho do quarto, depois vem o amor, depois vem a paixão, e nada mais do que isso

Ou morte, de ti, às primeiras horas da madrugada,

Odeio a noite, e nada mais do que isso nos nossos corpos, a distância das palavras, mortas, numa lápide de saudade e o eterno amor, depois, ele, partiu para as incandescentes ruelas do inferno, embrulhou-se nos lábios do sofrimento, tombou no pavimento

O espelho, cansado desta imagem prateada,

Tombou no pavimento como se fosse uma abelha a ancorar à colmeia do sexo, o orgasmo poético, a ejaculação da prosa em pequeníssimas lâminas de esperma, e eu… sofrendo com a tua ausência programada, hoje, acordei acreditando que estavas vivo, entre mim e em mim, olhei-te, perguntei por ti

E o espelho fantasiado de vergonha, a alvorada não nasce, o dia promete ser uma abstracta palavra, mota,

Perguntei por ti, ouvia-te longinquamente sobre as árvores do nosso jardim, e os pássaros poisados na nossa sanzala, o álbum de fotografias dos teus ossos, e percebi que brincavas entre mabecos e gaivotas embalsamadas pela tristeza,

Palavra, morta, ninguém à nossa porta,

Pela tristeza e pelo silêncio… marchar, marchar…

Fui, desisti…

 

(ficção)

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 1 de Novembro de 2015

Orvalho de ossos

Francisco Luís Fontinha 27 Jan 15

Porto, 27 de Janeiro de 2015

 

 

Não te oiço

olho os pássaros suspensos nas árvores

e imagino-te um poema em construção

não te oiço

mas sinto o ranger do teu corpo

como um comboio descontrolado

triste...

tão triste que não sabe o significado da dor

tão triste... que se aprisiona no silêncio de um longínquo corredor

tens nos olhos a noite estampada

e não existem estrelas nas tuas mãos...

nem luar no teu sorriso

não te oiço

invento horas num relógio imaginário

os dias

as manhãs

tudo não passa de um sonho

e não te oiço

meu querido

porque imagino-me nos teus braços

passeando as ruas de Luanda

víamos os barcos

e as sanzalas...

sem que eu percebesse o que era a morte.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Soníferos da vaidade

Francisco Luís Fontinha 19 Dez 14

Vadios soníferos da vaidade

que deambulam nas clandestinas ruas da saudade,

olhares prisioneiros da escuridão,

pincelados tentáculos de gelo descendo o teu corpo pérfido...

e às minhas mãos

o teu cabelo incendiado pelo desejo,

e às minhas mãos o odor censurado do teu coração,

voando sem rumo,

voando... voando embrulhado em lápis de cera que o tempo engole,

e não sabe que em mim habitam os cinzeiros de chita,

os cigarros de papel aromático desenhando lábios de medo na alvorada,

vadios soníferos da vaidade... vadios monstros da madrugada,

vadios meninos de Luanda,

sanzalas encalhadas no cacimbo zincado,

capim em luta pelo sexo,

sem horários como os calendários nocturnos dos mabecos em cio...

o rio se abraça ao barco náufrago que transporta a felicidade,

e a ponte se alicerça aos seios do amanhecer,

vadios os meus poemas

em meninos de Luanda,

a infância lapidada numa avenida sem estória,

como uma fotografia inseminada num estúdio negro,

assombrado,

sem número de polícia... ou paragem de machimbombo.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 19 de Dezembro de 2014

Balas de prata...

Francisco Luís Fontinha 19 Out 14

Há uma bala disfarçada de palavra

alojada no meu peito,

há uma jangada de geada voando sobre os teus seios,

Há um muro impossível de galgar,

Há no teu olhar a tristeza dos montes inanimados,

palavras,

balas de prata...

cachimbos despedaçados descendo a montanha,

Há uma bala amiga que me alimenta e adormece,

há uma cama clandestina prisioneira nas sanzalas com miúdos brincando,

cachimbos, e balas de prata...

me dizendo...

que há um jardim desenhado nas amoreiras da manhã,

enquanto eu fumando... me esqueço das teus lábios me beijando!

 

 

Francisco Luís Fontinha

Domingo, 19 de Outubro de 2014

A chuva vestida de branco

Francisco Luís Fontinha 15 Out 14

Odeio as poças de água

odeio os nenúfares e os sombreados vultos da noite

odeio a poesia

as palavras

e a felicidade...

ah... odeio a chuva vestida de branco,

 

odeio os acenos

e os enganos,

 

odeio...

 

odeio as sanzalas com telhados de vidro

as cidades sem transeuntes

nus

descalços

odeio as calçadas

e os cansaços,

 

odeio as pontes

e os beijos

odeio o silêncio e os cigarros de matar...

 

odeio... odeio o mar,

 

odeio as poças de água

odeio os nenúfares e os sombreados vultos da noite

odeio a poesia

e as espingardas de brincar

odeio... odeio a solidão e as lareiras invisíveis

odeio as cabanas inseminadas nos seios da montanha,

 

tudo odeio...

até que das nuvens inventadas pela madrugada

desçam a mim os sorrisos do milagre!

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 15 de Outubro de 2014

Três círculos de luz

Francisco Luís Fontinha 14 Ago 14

Uma casinha habitada por pequeníssimas lâminas de papel,

um coração de cacimbo voando sobre as sanzalas com telhados de insónia,

um homem, um poeta..., e a amante do poeta,

um corpo pendurado na preia-mar,

que espera o regresso do sonâmbulo cansaço da madrugada,

o silêncio disfarçado de mendigo passeando-se pelas ruas da cidade,

uma janela que nunca, que nunca se abre,

um poema nas mãos da clarabóia com braços de luar,

uma casinha,

e lâminas de papel,

um sorriso, um desejo... e três círculos de luz nos lábios do pôr-do-sol,

o sonho...

 

As paisagens pigmentadas nas paredes da casinha,

as palavras acorrentadas no estendal poético,

uma eira deserta, uma eira de vinil girando na noite...

e o sonho,

e o lugar que me falta alcançar antes de morrer,

a escola morta, a escola um amontoado de escombros,

cadernos apodrecidos,

quadriculados momentos que ficaram sob a árvore de sisal,

um menino brincando com um velho “chapelhudo”...

e um triciclo com o assento em madeira,

o mar, o mar do Mussulo em tracejadas rotações de amar,

no sonho, no sonho de voar...

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 14 de Agosto de 2014

As sanzalas embalsamadas!

Francisco Luís Fontinha 20 Jul 14

Aos dias ímpares, as horas que me são roubadas por uma mão sem nome,

as sílabas disparadas pela espingarda das sanzalas embalsamadas,

o meu corpo não cessa no púlpito do cansaço, ele evapora-se, ele... ele transforma-se em zinco lamaçal,

há uma criança inventada, uma criança perdida na saudade...

aos dias ímpares, as horas malvadas,

que alimentam a dor,

que... que engolem todos os amanheceres,

e do meu corpo, apenas o coração de pedra ficou adormecido na eira da poesia,

 

Aos dias ímpares, o triste calendário envergonhado,

a desassossegada fantasia de um texto alienado, quando arde na fogueira da tua pele,

uma cidade nos espera, uma cidade em papel...

 

Aos dias ímpares, as horas, os minutos, e os... e os milésimos de segundo,

alguns em liberdade, e outros... e outros acorrentados a um envelhecido veleiro,

hoje não há vento,

hoje... hoje apenas a límpida tarde de pano a soluçar sobre as árvores do triângulo equilátero,

é este o meu Mundo?

ter uma cidade sem candeeiros em desejo,

ser filho de um desenho que o tempo apagou numa longínqua parede,

e contento-me com todos os dias ímpares, as horas que me são roubadas...

 

E a tua mão... e a tua mão, um dia, terá um nome, idade, raça, sexo... religião,

 

Aos dias ímpares, a geometria na doçura da caligrafia,

um poema morto, um poema descendo a calçada em direcção ao infinito...

e o meu corpo não cessa no púlpito do cansaço...

 

E o poeta permanecerá eternamente nas sanzalas embalsamadas!

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 19 de Julho de 2014

se o teu corpo falasse

Francisco Luís Fontinha 19 Abr 14

se o teu corpo fosse apenas uma palavra

uma flor solitária no jardim dos jasmins

uma estátua sem nome

sexo

ou idade...

se o teu corpo fosse a noite enfeitada com lantejoulas e alecrim

desconexo melódico das músicas sem anoitecer

conforme os sonhos da insónia

se o teu corpo fosse uma guitarra

uma bateria prisioneira num quinto andar com janelas para o Tejo...

um cacilheiro em combustão

procurando poemas

 

inventando livros nas mãos do silêncio

se o teu corpo fosse uma sinfonia de fotografias a preto-e-branco

nua

sexo

ou idade...

se o teu corpo habitasse na ponte do incenso

mergulhada na tristeza de um olhar pintado de verde

nua

sexo

ou... idade

se o teu corpo fosse um livro de ler

a lareira do Inverno recordando a saudade...

 

se o teu corpo existisse

tivesse vida como a vida das minhas personagens

se ele me dissesse que me amava

se o teu corpo fosse a jangada

a livraria enfeitada com o pó envenenado das sanzalas perdidas no Oceano...

nua

sexo

ou... idade

se o teu corpo falasse

gritasse

- eu estou apaixonada...

e eu acorrentava-me ao teu corpo com o nome de “palavra”...

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 19 de Abril de 2014

O cansaço da manhã

Francisco Luís Fontinha 22 Mar 14

foto: Algures entre Luanda e Lisboa – Setembro/1971

 

Percebia-se nas tuas tristes pétalas o cansaço da manhã,

flutuávamos sobre as palmeiras hilariantes junto à Baía, davas-me a mão, e obrigavas-me a sonhar,

dizias-me que os barcos eram corpos moribundos de passageiros em viagem,

e do cais observávamos os caixotes em madeira prontos para o suicídio da loucura,

eu, eu acorrentava-me a ti como se tu fosses um embondeiro entre nuvens e sanzalas, que voava,

que... que acreditava em papagaios de papel e nos alicerces nocturnos de uma cidade em construção,

 

Gosto muito de ti, dizia-te!

Quero ser como tu, simples, como as primeiras palavras que me ensinaste e os primeiros rabiscos que deixei em todas as paredes da casa onde tínhamos as mangueiras e as pombas... e o portão, o portão...

imaginava-me a sobrevoar todo o bairro em cima de um velho triciclo,

e... e nunca me esquecia de te esperar no final do dia,

“percebia-se nas tuas tristes pétalas o cansaço da manhã”,

e chorava quando adormecia sem perceber que já tinhas chegado...

 

E chorava quando me mostravas o mar, e as gaivotas, e... e os coqueiros,

levavas-me ao Baleizão, sentávamos-nos na esplanada, e eu, eu sonhava como essa cidade em construção que um dia tive de abandonar, regressei às tuas mãos, regressei como um velho caixote em madeira... procurando corpos moribundos em viagem,

afinal... afinal também me transformei em passageiro em viagem,

um caixote em madeira, com olhos, com braços, com mãos... e sonhos de sonhar,

barco, dei-me conta que hoje sou um barco rumo ao desconhecido,

um barco travestido de saudade.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 22 de Março de 2014

Sobre o autor

foto do autor

Feedback