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Cachimbo de Água

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As palavras do amor

Francisco Luís Fontinha 9 Set 18

Das janelas não se viam as transeuntes folhas caducas,

A rua imunda, suja, recheada de sombras invisíveis,

E um corpo putrefacto mergulha na minha mão…

Que faço eu com ele?

Alimento-o,

Enterro-o…

Ou escrevo nele a minha raiva.

As espadas da saudade, cravadas no peito húmido do esqueleto de vidro,

As pedras perfurantes alicerçadas nos lábios do abismo,

Sinto-me tudo isto, ao adormecer…

Sem perceber as palavras do amor.

 

 

Francisco Luís Fontinha

09-09-2018

As escadas da morte

Francisco Luís Fontinha 26 Ago 18

O louco sou eu.

Aquele que te acolhe nas noites de Inferno, recheadas de vento e veneno…

O louco sou eu,

Agachado nos socalcos olhando o Douro encurvado,

Pego na enxada da loucura, rezo pelo teu corpo e desespero-me em frente ao espelho envergonhado,

O louco sou eu, o teu eterno louco das tardes de poesia…

E sentia,

Dentro do meu peito, os apitos dos teus lábios afastando-se das marés de Inverno,

O sol que mergulha no xisto amarrotado pelo vento,

E as cidades que se escondem no poema…

Hiberno,

E para a semana que vem, fujo do teu sorriso,

Subo as escadas da morte,

E com um pouco de sorte,

Desprovido de juízo…

Uma caravela deita-se na minha cama,

Dispo-a,

Adormeço-a na minha mão…

Até que a tempestade nos separe.

 

 

 

Alijó, 26/08/2018

Francisco Luís Fontinha

Camarada das noites perdidas…

Francisco Luís Fontinha 19 Ago 18

O que eu estranho na tua voz,

Os musseques de Luanda, ao longe, a praia e o mar…

Sinto o velho capim embrulhado nos meus braços,

Assobios,

Abraços,

Sinto no meu corpo o sorriso dos mabecos, enfurecidos pela tempestade,

Chove, a água alicerça-se no meu peito,

Estou morto, nesta terra sem fim,

Dilacerada como um cancro de chumbo poisado no meu sorriso…

A morte é bela,

E passeia-se pela minhas mãos.

 

Ouves-me? Camarada das noites perdidas…

 

O que eu estranho na tua voz,

O silêncio das flores,

As raízes do cansaço em frente ao espelho, sinto e vejo… o susto,

O medo de adormecer no teu colo,

Meu cadáver de lata,

Recheado de lâmpadas encarnadas…

 

Ouves-me? Camarada das noites perdidas…

 

A jangada laminada,

O sorriso de uma pomba, correndo a Calçada,

E no final da tarde,

Antes da alvorada,

Uma pedra se parte, arde na minha mão, como uma faca de sombra…

Cravada no corpo.

 

Assobios,

Abraços,

 

Enquanto eu o que estranho na tua voz,

São as sílabas do desespero.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 19/08/2018

Ausências

Francisco Luís Fontinha 12 Ago 18

O tempo não passa.

O tempo é uma ameaça, um rio sem nome,

Escondido na minha infância.

 

Mãe, tenho fome,

Sinto o vento na tua lápide imaginária…

No fundeado Oceano,

De pano…

 

Mãe, me aquece antes que adormeça,

E esqueça,

O telefone,

Que não me larga,

Durante a noite,

A desgraça,

 

Os ossos envenenados pelo tédio da esplanada mal iluminada,

O empregado,

Coitado,

Cansado…

Já não me atura,

Foge,

Mistura,

O tabaco com outras substâncias, folhas mortas, ausências…

 

O tempo não passa, mãe.

 

E sinto constantemente, em mim, esta miséria,

Que me alimenta,

Mente,

Como um Planeta adormecido,

Senta,

Senta em mim as sombras das tuas lágrimas.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 12/08/18

Que sítio é este, meu amor!

Francisco Luís Fontinha 5 Ago 18

Que sítio é este, onde me trazias lágrimas e palavras,

Ao final do dia,

Quando o meu corpo sentia,

A saudade desorganizada da fantasia,

Que corpo é este, onde me alimentavas a poesia,

E ao nascer do dia,

Uma gaivota apaixonada,

Me dizia…

Amanhã não serás nada,

 

Que amor é este, que trazes na lapela,

E afoguentas o Verão…

São palavras, senhora,

São vírgulas envenenadas pelo vento,

Que vem e vão…

 

Que silêncio é este, menina das tardes perdidas…

 

Entre rochedos e riachos, entre parêntesis e lâminas de incenso,

E lágrimas vendidas,

Numa qualquer feira, numa qualquer cidade,

Incendiada pelos teus seios, numa qualquer madrugada,

 

E searas.

 

Que triste, meu amor, as amoras selvagens,

Dormindo nos caminhos pedestres,

Descendo até ao rio…

Setadas na penumbra liberdade,

De um beijo amaldiçoado…

Na triste saudade,

 

Que sítio é este, meu amor desgovernado, triste e cansado…

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 05/08/2018

Nesta casa

Francisco Luís Fontinha 29 Jul 18

Nesta casa não conheço a tua pessoa,

Nesta casa despede-se a paixão das estrelas sem nome…

Como um relógio abandonado,

 

Nesta casa deixou de haver alegria,

E todas as janelas se transformaram em grandes,

Revoltadas,

Cinzentas,

 

Nesta casa habita a saudade,

Da tua pessoa,

 

Em cada final de tarde,

 

Nesta casa não conheço a tua pessoa,

Apenas sombras de papel suspensas nas paredes,

E um sorriso submerso na minha infância…

 

Em cada dia,

 

Em cada tristeza.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 29/07/18

...

Francisco Luís Fontinha 14 Jul 18

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O sol, hoje, não acordou, da timidez do sonho renasce o sono desassossegado do movimento pendular da saudade, o riso adormecido, a chuva miudinha quando te invade as coxas de lã, e sinto-me um pedaço de poema envelhecido numa rasurada folha de papel…

 

 

Francisco Luís Fontinha

14/07/2018

A fuga

Francisco Luís Fontinha 8 Jul 18

Navego no teu sorriso como um louco pássaro,

O sal mistura-se na tua mão com a areia fina da saudade,

E perco-me no teu olhar…

Depois do pôr-do-sol.

 

Descalço-me,

Lanço-me ao rio…

E sinto o meu corpo em fuga em viagem até à morte.

 

Sou apenas uma serpente envenenada pela escuridão…

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 08/07/2018

A partida do Adeus

Francisco Luís Fontinha 19 Mai 18

O burro morreu. Paciência, dizem uns, coitado, dirão outros, mas eu é que o perdi e é a mim que faz falta.

 

Em homenagem ao meu burro falecido…

 

Tinhas a alegria da paixão.

Todas as madrugadas, ouvia os teus sons melódicos da fome matutina,

Sentia-te nos teus aposentos, rosnavas como um cão e uivavas como um lobo, com só tu o sabias fazer,

Lias os livros perdidos comigo,

Escrevíamos lado a lado na secretária de madeira,

Com cheiro a poeiras e outros cheiros…

O Ópio abafava-nos, levava-nos aos confins do Universo, comíamos cenouras, bebíamos uísque de Sacavém…

E tinhas sempre um sorriso na algibeira.

Todas as flores eram nossas,

E, o quintal perdido na imensidão do desejo…, contiguas aos pássaros das árvores de brincar,

Sempre no desejo, de um dia, seres eterno como eu.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 19 de Maio de 2018

Palavras ao vento

Francisco Luís Fontinha 22 Abr 18

Flor queimada.

Quando a enxada da saudade,

Dócil quimera da tempestade,

Mergulha na madrugada,

 

Perfume da solidão,

Rasgando a terra onde se entranha o teu cansaço,

Toco-te com a minha mão…

E sacudo a espada do abraço,

 

Nada faço,

 

A não ser escrevendo palavras ao vento.

 

Me sento.

 

Me alimento.

 

Menino da tua liberdade.

 

Flor queimada,

Que o mar semeia nos tempos de espera,

Quem me dera…

Nos soníferos da pomba assassinada.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 22 de Abril de 2018

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