Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

03
Fev 20

O regresso nunca mais.

A terra húmida, depois das lágrimas da tarde,

Ficou lá, no outro destino do menino dos calções.

Todas as sombras, choram, ditam palavras aos esqueletos de silêncio,

Que as mãos, trémulas, seguram, enquanto cai a noite,

O corpo, levita, desassossega na madrugada,

Sente-se o vento, negro, prateado, nos lábios do Diabo,

O regresso…

Nunca, nunca mais,

Porque a solidão namora as flores em papel, do jardim imaginário.

E o menino, com o tempo, cresceu.

Um relógio de luz, quando acorda o menino,

Alicerça-se nos braços lânguidos que o espaço alimente,

Dos calções, nada, nem a cor se aproveita,

Talvez, as árvores, as árvores plantadas por ele,

Hoje, nada, como os calções,

Pedaços em madeira, trapos, lágrimas desajeitadas…

Tudo, tudo morre, naquela terra prometida.

O mar, enfurecido, sacia-se nas rochas metamórficas do cansaço,

Um barco, espera pelo menino dos calções,

Estaciona-se junto à cidade,

Homens, marinheiros, mulheres, sem fazerem nada,

Espera que regresse o menino,

De longe,

De nada,

Ninguém.

O regresso nunca mais,

A terra húmida, depois um finíssimo fio de nylon,

Procura na multidão da cidade, o menino prometido,

Da terra sonâmbula,

Que o viu perder-se,

No meio do capim.

Machimbombos tropeçam nas finas lâminas da saudade,

Porque apesar de tudo, sempre, o menino, viveu na saudade,

De regressar, um dia,

À sua cidade.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

03/02/2020

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:09

02
Fev 20

E, agora? O que será de nós depois da saudade;

Pertenciam-lhe as palavras invisíveis das marés de prata.

A boca mergulhava na ínfima madrugada do silêncio,

Descia à cidade, quando acordava a noite,

Pegava num pedaço de sombra,

Agachava-se no pavimento húmido da solidão…

E, gritava palavras de amor.

E, agora? Que a tempestade regressou de ontem,

Traz consigo os dois cansados cadáveres da única memória que lhe restava,

Os homens entre guerras e coisas simples, banais,

Percorriam as ruelas sem saída, suspendiam pinturas nas janelas do horror,

Para que as crianças conseguissem adormecer,

Nesta cidade de “merda”, sem dormitórios, sem palavras abstractas,

Que pertencem aos livros de poesia.

O corpo arrefece sobre a lápide fria da manhã,

O silêncio vem em direcção ao peito,

Como uma flecha, e, o sangue corre para os canaviais…

Tinha medo da saudade,

E, agora?

O que será de nós, depois da saudade, quando alguém procura o corpo amachucado pela violência dos gritos do homem de chapéu negro,

Seu nome Chapelhudo, vestido de pássaro nocturno,

Quando as palavras emergem e, tudo à volta morre, extingue-se em finíssimos pedaços de carvão,

O desenho acorda,

Mergulha na tela da saudade,

Sempre ela, a saudade dos dias, da noite, dos candeeiros a petróleo…

E, agora? Nada.

Apenas um sorriso,

Flácido,

Triste,

Porque sim;

Cansado da vida.

Chapelhudo, morre. E todas as palavras do menino branco.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

02/02/2020

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:04

29
Jan 20

Todas as coisas, possíveis, impossíveis,

Acontecem quando nasce em mim a noite.

O corpo range de sono, perco-me nas palavras da saudade,

Quando regressa a madrugada,

E, todos os pássaros voam em direcção ao mar.

Um barco chilreia, voa sobre o jardim das cantarias,

Flores dispersas, como mendigos apressados,

Brincando na eira,

Olham o cereal,

Deitam-se no chão,

E, sonham com o luar.

Todas as coisas,

Infinitas, finitas, nas mãos de Deus.

Um esqueleto de silêncio vagueia nas pálpebras da insónia,

Morrem as pedras do meu pobre jardim,

Levantam-se as migalhas da fome,

Quando um carnívoro de sombra, às vezes cansado, levita na escuridão da solidão.

Tenho fome;

Tive pai, mãe, e, nada mais…

Agora, tenho a floresta,

Os papagaios em papel, de três cores,

E, num pequeno caderno quadriculado, invento o sonho,

Imaculado, distante, ausente,

Como todas as coisas,

Possíveis, impossíveis.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

29/01/2020

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:58

19
Jan 20

Durante a noite, sem horários dentro de mim, atravesso as portas enferrujadas do Inferno.

Visto-me de negro,

Assalto as janelas da escuridão,

Antes de acordar o Sol.

É tarde.

O sono brinca no silêncio das fechaduras da insónia,

Os primeiros transeuntes, também eles, vestidos de negro,

Avançam em minha direcção;

Tenho medo, mãe!

Não sei se vou acordar, hoje, porque sinto-me envergonhado, por estar vestido de negro.

As pirâmides, que assombram o meu pensamento, dançam sobre um rio desenhado na minha mão,

Trago as pedras, e sou capaz de apedrejar esta maldita solidão, que abraça os musseques da minha infância.

Uma multidão em revolta, vem para mim,

Não sou capaz de correr, saltar, descer os socalcos que me separam do dia;

Ai os dias, ai os dias!

São todos iguais.

São dias, pedacinhos de quadricula numa folha de papel, que alguém apelidou de calendário.

Andam rápido. Caminham como serpentes, quando o Sol aquece a presa, o manjar prometido por Deus.

Morre-se, morrer-me como quem fuma um cigarro envenenado pela tempestade,

No sacrifício dos dias.

Durante a noite, fumo.

Bebo pequenas gotículas do tão falado vénedo, mato os pássaros, e fica em mim a saudade,

Simplesmente, às vezes, entram em mim as carruagens que trazem os pequenos blocos de granito,

Folhas de silício, almofadas para uma noite doente, sempre que oiço os gonzos da madrugada.

Durmo.

Esqueço a saudade.

E, prometo acordar cedo.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

19/01/2020

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:21

15
Jan 20

Não me digas as palavras que eu te prometi.

Ontem, reinava o silêncio, no interior do teu abraço,

As flores, cansadas de dormir, acordaram com o teu sorriso,

Dilacerado nas manhãs de Sábado.

Não gosto dos Sábados, meu amor.

Fico estúpido, burro,

Durmo na despedida do Adeus,

Às vezes, esqueço-me de almoçar,

Lanchar,

Ou… jantar,

Coisa pouca,

Ninguém morre por não comer.

Não me digas as palavras que eu te prometi,

Porque este livro em solidão,

Assusta-se com a minha voz,

Foge de mim,

Como um mendigo,

Ou… sem-abrigo.

Não,

Não me digas,

As palavras,

Em voz alta,

As palavras que eu te prometi,

E mesmo assim, hoje, escrevo-as no teu olhar.

Sinto-me cansado dos dias,

Das noites,

Sem dormir,

Vagueando num corredor escuro,

Sombrio,

Que me traz à lembrança, a morte.

Essa mesmo,

O final do dia,

O eterno desgosto,

Que abraçam os livros de poesia.

Oiço-te,

Lá longe,

Nas páginas esquecidas da sonolência das palavras,

E mesmo assim,

Grito,

Sufoco com os gritos das pedras,

Também elas, tristes, gastas, e, cansadas.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

15/01/2020

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:47

04
Jan 20

Eu sabia que era noite.

Percebia que as lâmpadas da saudade se acendiam pela primeira vez, e, no entanto, dentro de mim, uma simples constipação de palavras brincava num pequeno verso,

Triste, distante, eu sabia que era noite, e que os holofotes da desgraça vinham em minha direcção.

Esqueci-me de olhar o pôr-do-sol, não interessa, amanhã novo pôr-do-sol acordará, sem insónias, sem preguiça, como hoje, dentro dos lençóis iluminados pela tempestade de silêncio que se faz sentir dentro da casa, submersa em pequenos fios de nylon, e às vezes, não muitas, o poeta arrepende-se de ter escrito o poema; acontece quando o amanhecer é tardio, frio, ambíguo…

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

04/01/2020

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:43

25
Dez 19

Não sei o que te dizer, meu amor. As esplanadas estão recheadas de vampiros, vestidos de branco, ao longe sinto o vapor da saudade, vem em minha direcção, como um foguete, no Verão, nas festas de aldeia.

Não, não sei o que te dizer, meu amor. Apenas que está frio, que todos os meus livros, que são muitos, resolveram apedrejarem-me, por tudo ou por nada, eu não fiz nada;

As serpentes, meu filho.

Não o sei, mãe. Nunca soube porque foste embora, como a Primavera, quando parte e nada diz às andorinhas que vai partir.

As serpentes, meu filho…

Que têm as serpentes, mãe?

O vento trouxe a morte, depois o vento trouxe a solidão, dos dias, das noites, das madrugadas sem dormir…

E tu, sorridente para mim; pareces feliz!

Eu não percebo porque o vento é assim,

Assim, como, meu filho?

Assim, triste, furioso, malandro, quando corre para mim, e sei que foi ele que te levou para longe, para junto das montanhas, o amanhecer é sempre triste, como todas as manhãs ao acordar, percebes?

Não, não percebo.

E depois regressa a cegueira dos homens, também eles, como os vampiros, vestidos de branco. Vem de lá o orgasmo da saudade, traz dentro dele a tristeza da poesia envenenada pelo Cacimbo, o capim esconde-se no meu peito, um papagaio em papel, construído por ti, valentemente me abraça; acredita, mãe, não é fácil abraçarem-me, principalmente durante a noite, tenho medo das sombras do teu sorriso, quando reparo no pavimento as tuas lágrimas de despedida, como hoje, como ontem, a alvorada engana-se nas horas, acorda, acorda-me e morre, como tu.

E morre como tu.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

25/12/2019

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:22

01
Dez 19

Habito neste labirinto de lata.

Desta pobre sanzala abandonada.

Habito neste corpo de ossos,

Alicerçado às muralhas dessa pobre calçada.

Habito neste corpo de chapa,

Cansado da tristeza.

Vejo-me no espelho da beleza…

E apenas observo sombras, linhas rectas envergonhadas.

Habito neste poeirento cansaço,

Nas tardes infinitas,

Que os meus lábios vomitam…

Palavras malvadas.

Palavras bonitas.

Habito no teu cabelo desgovernado pela doença,

Entre gemidos e demência,

Habito na tua boca engasgada na madrugada,

Quando o silêncio não é nada,

Quando a vergonha,

Envenenada,

Dorme na tua mão calcinada.

Habito, meu amor, neste palácio assombrado,

Dentro de livros com personagens moribundas,

Entre xisto e calçado,

Nas montanhas fundas.

Habito.

Habito nos duzentos e seis ossos Outono,

Quando as árvores se despem, e o teu corpo, longe do mar,

Enaltece a maré de chorar.

Habito sem parar,

Neste labirinto do sono.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

01/12/2019

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:27

28
Nov 19

Subo vertiginosamente as escadas da saudade.

Pego na tua fotografia, recordas-me um sorriso de nylon.

Amanhã, vou partir para o infinito amanhecer.

Sem perceber,

Que dentro da saudade,

Habita o beijo.

Abraço-te no invisível tempo,

Como uma barcaça desnorteada junto ao cais.

Finjo.

Minto.

Escrevo-te, sabendo que nunca me vais ler…

Porque os esqueletos não lêem…

Nem choram.

Subo vertiginosamente as escadas da saudade.

Sento-me no teu colo,

Preciso dos teus mimos,

Preciso de tocar nas tuas mãos…

Enquanto seguras religiosamente o terço da esperança.

Não vou dormir,

Enquanto, lá fora, chove.

Tenho medo da chuva.

Tenho medo da claridade,

E só a noite,

Consegue alimentar estas tristes paredes de alvenaria…

Grito.

Ouves-me?

Não.

Não me ouves.

E eu oiço os teus gemidos esquecidos num quarto de hospital,

Oiço o cansaço da tua voz…

Que me dia;

Amo-te, meu querido.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

28/11/2019

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:02

23
Abr 19

As rosas são como o amor.

As de papel, claro,

Secam,

Folheio cada pétala,

E em pedacinhos de nada,

Fumo-as.

O amor arde,

Será que depois fico apaixonado?

Ou louco?

Será a loucura clonagem da saudade?

Ou será a saudade apenas o fingir que se ama…

Fico estonteante,

As rosas, em papel, depois de fumadas… enlouquecem as mãos do poeta.

A caneta de tinta permanente começa a lançar borrões sobre as palavras,

O resto das pétalas das rosas, como-as…

Como se fossem uvas,

Ou laranjas,

Ou tâmaras…

(fofam-se as tâmaras)

O amor é fumo, pedaços de cinza, morrão, papel queimado.

E no fim do dia, acabará o amor?

E se eu fumar o poema?

A cidade comer-me-á?

As rosas são como o amor.

As de papel, claro,

Secam,

Emagrecem,

E morrem.

Se as rosas morrem! O que acontecerá ao amor que é uma rosa em papel?

Os cromossomas,

As células loucas no pulmão da minha mãe…

Mas o amor… esse… vive… está lá…

Sentado sobre a mesa-de-cabeceira.

Ao lado tenho um livro de AL Berto…

Que mais poderia ser…

AL Berto.

O Pacheco é mais livro de secretária, de café,

Adoro tomar café com o Pacheco.

Sabes… puta que os pariu.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

23/04/2019

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:52

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