Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

13
Fev 15

Desenho_A1_10.jpg

(desenho de Francisco Luís Fontinha)

 

 

O teu corpo impregnado de silêncios

camuflados pela gelatinosa alegria das palavras

o teu corpo amortecido nos lençóis da desgraça

e do infortúnio nocturno das clarabóias em delírio

existe uma imagem invisível

passeando sobre o teu peito desnudo

fixo

o crucifixo da solidão

entre quatro paredes verdes

e uma janela em chamas

que só o mar consegue adormecer

em dias de Verão,

 

Há melancolia

e pedaços de saudade

ruas travestidas de prostitutas sem nome

amorosas

afáveis

de flor na lapela...

o perfume intenso a sexo que só uma carta sem remetente sabe desenhar

nas sombras do rio

o teu corpo majorado pelos ventos da insónia

e do espelho da morte

o majestoso orgasmo

absorvido pela tempestade dos triangulares sorrisos...

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2015

 

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:40

01
Set 14

Pediram-me silêncios...

e eu, nas nuvens amarguradas da tempestade da insónia,

desenhei... gritos,

transformei abraços em pedaços de madeira,

escrevi beijos em bandejas com flores grisalhas,

tinham cabelos cinzentos,

os homens das esplanadas inventadas,

depois... depois sentei-me no pôr-do-sol,

chamei a mim a tristeza do fim de tarde,

peguei num cigarro quase moribundo... e vi-o morrer nos meus dedos,

sentia-lhe os últimos desejos,

sabia que pouco tempo depois morreria como um desprezado,

como tantos homens morrem,

como tantas crianças nascem...

como tantos cinzeiros esquecidos num roseiral,

pediram-me silêncios...

e pintei nas pratas enroladas do invisível desassossego,

bolhas castanhas com odor a calafrios...

o corpo emagrecido rangia,

os alicerces destruíam-se enquanto o vento se escondia numa locomotiva abandonada,

sem percebermos que nunca existiu um ponto fixo de chegada,

havia lanternas com dentes de marfim,

tínhamos no sótão um guindaste de brincar,

abríamos a janela,

e puxávamos o mar,

só para nós...

até que uma fina película de cacimbo comeu-nos as bolhas castanhas...

o corpo começou a arder,

os braços ancoravam-se aos indolentes amanheceres...

vi uma luz que vivia dentro de uma caixa de vidro,

acenou-me... e no tecto começaram a nascer gaivotas,

ouvíamos os apitos dos barcos de papel,

e nenhum marinheiro se atreveu a resgatar-nos dos gritos das bolhas castanhas...

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Segunda-feira, 1 de Setembro de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:36

03
Ago 14

Sinto-me prisioneiro das correntes de luz que embrulham o teu olhar,

sou um casebre perdido na montanha, uma árvore, um cigarro que arde...

e... e que nunca se apaga,

sinto-me a noite no precipício da saudade,

esperando o regresso das mãos poesia,

sinto-me um esqueleto desventrado, uma sanzala iluminada pelas pálpebras da madrugada,

acariciando o meu rosto de página amarrotada,

e... e que nunca se apaga,

o teu sorriso, o teu corpo voando sobre o meu peito,

sinto-me..., sinto-me uma jangada, a maré contra os rochedos,

o poço da morte onde habitam néons com silêncios medos,

e... e que nunca se apaga,

 

Sinto-me prisioneiro das correntes de luz...

quando a tarde se extingue nas tuas coxas,

… o teu olhar,

magoa, incendeia a minha solidão,

sinto-me... sinto-me um desamado, um corpo suspenso na varanda do luar,

na rua, na rua adormecem chapéus de palha e canaviais,

e eu, e eu aqui... aqui... aqui dentro deste casebre perdido na montanha,

havia um beijo à janela do farol, e o petroleiro do amor...comeu-o,

hoje só os lábios de titânio resistiram à dor,

… o sofrimento,

o sofrimento de desejar,

desejar sem ser desejado.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 3 de Agosto de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:40

19
Jun 14

Tenho medo de olhar o teu rosto lusco-fusco, e frágil, de areia, de mar, maré...

cacilheiro à procura de uma gaivota com sorriso de amanhecer,

poema inventado, poema por escrever,

sentindo nas pálpebras os alicerces da madrugada de papel,

tenho medo, confesso, de olhar-te nesse espelho convexo, onde pareces uma persiana suspensa no vento sem rumo, sem... sem estória,

uma correia, uma roda dentada... em movimento,

tenho medo, medo,

que adormeças, que não regresses... sem me dizeres... Adeus,

encontrar-nos-emos qualquer dia, por aí, numa esplanada,

ou... ou no Céu,

não acredito, mas finjo acreditar, e do medo, e do medo nascem em mim silêncios,

e... e palavras de gritar.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 19 de Junho de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:04

26
Mar 14

Dizes-me que a noite é uma construção em néon adormecido,

vives pedindo-me palavras, vives... regateando silêncios entre carris de aço,

dizes-me que sou um cadáver embriagado,

triste... triste e sem cansaço,

sem o cansaço pedestal do azoto,

 

Dizes-me que amanhã não há paixão,

que todos os rios são solitários e casmurros, e... e sem mãos para as caricias do amanhecer,

sinto-te embalada no gatilho do incenso coração,

sem a espingarda neblina teu olhar, sem... sem flores a envelhecer,

e mesmo assim, dizes-me que sou um transeunte envenenado pela solidão,

 

Dizes-me que sou a tua nuvem colorida,

mas apenas o dizes quando te convém,

dizes-me que na madrugada nua...

não há nada, nada, nem ninguém,

porque me dizes ser eu uma estrela de algodão?

 

Dizes-me que não entendo os teus lábios em puro cristal,

que sou desastrado, ingénuo... que sou um falhado,

que sou o teu livro do mal...

como petroleiros da insónia esperando o marinheiro apaixonado,

como o triste vagabundo... no Inferno da cidade dos canibais,

 

Dizes-me que a noite é uma construção em néon adormecido,

pergunto-te se nos teus seios habitam jasmins, amoreiras... rosas encarnadas,

respondes-me que não, e dizes-me que há em ti o sorriso envelhecido,

como gelatina encaixotada nas janelas desalmadas,

e depois, depois... desapareces entre as rochas e os cadeados invisíveis do desejo.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 26 de Março de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:25

27
Fev 14

Foto de: A&M ART and Photos

 

(aos meus pais que fazem hoje 49 anos de casados)

 

 

As tuas mãos gélidas nas minhas pálpebras de insónia,

oiço-te sorrir junto ao tanque da agonia,

ao longe os gemidos trémulos do sino da Igreja...

percebo que nos teus olhos habitam lágrimas de papel colorido,

e sobre os teus ombros,

o peso,

o peso imensurável das sombras do abismo,

o peso... o peso da saudade saboreando as nuvens de algodão da madrugada,

 

As tuas mãos são como pedaços de barro esquecido na parede da solidão,

há em ti cabelos perdidos e alguns silêncios intransponíveis, ocultos... mórbidos,

há dentro de ti o cansaço,

o triste cansaço da vida,

e das tuas mãos as doces carícias do amanhecer,

há uma janela com palavras de acordar...

e palavras de acordar nos cortinados que cobrem as tuas mãos gélidas,

as tuas mãos de mim, as tuas mãos de uma sanzala enrolada em capim...

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 27 de Fevereiro de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:06

27
Nov 13

foto de: A&M ART and Photos

 

permaneces intacta como uma imagem sedentária na mão do homem com o chapéu negro

finges sorrisos camuflados nos orgasmos flutuantes do fumo em suspense

o cigarro dilacera-se e adormece na mão do homem com o chapéu negro

e imaginas-te

em liberdade sobre a cidade em chamas que o desejo desenha no teu corpo em porcelana marginal...

sentes-te uma pomba abandonada?

uma gaivota traída por um petroleiro de fino estanho suspenso na tua varanda imaginária?

ou... serás a serpente do medo que brinca dentro do quarto onde se esconde o homem com o chapéu negro e suicida-se na corda do fumo invisível que atravessa o cortinado do sexo pelo sexo...

uma janela insemina-se e dizes-me que nas árvores do quintal do nosso antigo vizinho

lembras-te? aquele que construía sonhos com pedacinhos em papel...

habitam mangas embalsamadas.... e ouvem-se as lágrimas do esqueleto de cheiros quando regressa a chuva

 

(e daí

vêm a nós os sorrisos das cansadas madrugadas como engrenagens cinemáticas dentro de um álbum de capa dura...)

 

oiço os teu cigarros no ridículo silêncio da tempestade de cimento a que chamas de pavimento dos silêncios minguados quando mergulham em ti as sílabas dos tentáculos da dor

oiço as delícias do mar dentro da tua sandes...

sonoros corações de manteiga despendem-se do solidificado amor das tardes em amoreiras de vidro emagrecido e a paixão enaltece o significado da palavra... “despedido”

um dia serás como a morfina

curarás o meu sofrimento

e farás parte do meu cadáver de madeira enquanto a noite vaguear junto aos arrais embriagados...

suspiras

e finges... ais

e alimentas-te dos versos meus

meus... como pedras sobre a cidade fingida dos uis...

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 27 de Novembro de 2013

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:54

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