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Cachimbo de Água

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Regressar

Francisco Luís Fontinha 11 Mar 14

foto de: A&M ART and Photos

 

Imagino-me deitado nos teus recortados sonhos de papel cenário,

acaricio a tesoura da saudade e sinto-lhe o perfume do amanhecer,

há entre nós uma sombra louca em betão armado,

amado cacilheiro vagueando ruas e avenidas sem janelas para o mar,

imagino-me adormecido,

ausente dos teus beijos,

imagino-me deitado nos teus tristes lábios quando a tua pele se despede da madrugada,

há uma ponte para atravessarmos, há uma ponte imaginária nas tuas mãos de cidade sem nome...

e dos teus dedos vejo crescerem dentes de gladíolos como desenhos de paixão ancorados ao meu peito de celofane,

imagino-me sentado esperando o teu regresso...

e sei que nunca vais regressar, porque é impossível regressarem aqueles que nunca existiram...

e fico junto ao cais, imaginando-me deitado nos teus recortados sonhos de papel cenário,

 

Imagino-me deitado nos teus olhos com odor a amoreiras apaixonadas,

imagino-me cinzento,

nuvem sem rumo, nuvem em pequenos farrapos de nada,

imagino-me sendo as tuas pálpebras e percebo o significado da dor,

imagino-me deitado... de papel cenário,

cansado... cansado dos versos embriagados,

imagino-me o cigarro que não consegue arder porque acredita nos sonhos de papel cenário,

e quando se afunda a noite no meu corpo...

o circo emerge de mim,

palhaços, trapezistas... e animais embalsamados... imaginam-me deitado nos teus seios poéticos com sabor a sílabas abençoadas,

como os pássaros...

como os pássaros poisados em jangadas.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 11 de Março de 2014

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