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Cachimbo de Água

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O Douro curvilíneo

Francisco Luís Fontinha 7 Jul 11

A podridão da chuva nas tardes de domingo,

Automóveis que circulam na azia do almoço quando do estômago se levanta o cansaço da digestão, o peixe pregado à parede da casa sorri como ventoinhas abraçadas aos círculos das horas, o vinho a granel saltita de mesa em mesa, o taberneiro de cigarro suspenso nos lábios enrolado nos pêlos invisíveis da barba semeada numa tarde de vento, a gordura peganhosa das mãos salientes como pincéis calcinados na tela do relento, cospe para o chão, mergulha os dentes em bolos de bacalhau e sandes de presunto, ovos cozidos que salpicam latas de atum, e no pavimento as beatas de cigarro deixadas pelos marinheiros, o peixe do rio assado uma delícia, recordo-me eu da tarde que sentado à mesa não percebia o boneco de barro sobre o balcão e pintado de palavras,

- Queres fiado toma,

O rádio engasgado no terço da tarde, “Ave-Maria, cheia de graça, o senhor é convosco”, e confirma que foi o senhor que roubou os perus do meu quintal, sim excelência fui eu, respondo-lhe pausadamente, “Pai nosso que estais no céu”, condeno-o a três meses de trabalhos forçados e em seis meses sem contacto com livros ou a possibilidade de escrever, está bem assim?, perguntam-me, e eu respondo que sim, que posso eu responder, o boneco de barro olha-me ,

- Abre o olho pá, sussurra-me o taberneiro enquanto me debato com as espinhas do peixe,

Seis meses sem livros?, Seis meses sem escrever?,

- Que alivio para nós, os leitores do meu blog,

Eu em luta de pinguins com as rodelas de cebola, furo-lhes os olhos com o garfo inclinado, o braço que segura o garfo em rotação, a rodela de cebola em círculos concêntricos, e pimba contra as teias de aranha do soalho do primeiro andar,

- Queres fiado toma,

Desisto,

Não sou capaz, não sou capaz de olhar as rodelas de cebola, o cheiro revolta-se-me no estômago e vomito pedacinhos de letras, a diarreia de vogais e as sílabas em esguicho do nariz embriagado,

Caio para o lado, tombo da cadeira e estatelo-me no soalho nauseabundo de saliva, a podridão da chuva nas tardes de domingo, e quando acordo eu sentado no cimo de uma montanha, e ao fundo, ao fundo bem lá longe, o Douro curvilíneo a contornar os socalcos.

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