Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

19
Jul 11

A pérola embriagada das manhãs cânforas do meu olhar,

O rosnar do cavalo a diesel de boca aberta a engolir o milho da manhã, a madrugada despede-se e aos poucos a claridade abraça-se aos pinheiros, nas fendas do granito do muro de vedação da leira um coelho esconde-se, e ao lado do tanque uma perdiz em movimentos femininos, de sapatos altos e minissaia, nos lábios poisa o batom em fogo do sol que se esconde nas ripas do canastro, e nos cabelos prende uma rosa branca, a perdiz saltita, a mulher emagrece nas sombras das ramadas, as videiras coçam-se ao arame e encostam-se aos esteios de cimento, na mulher cresce um sorriso de bom dia e a perdiz mingua junto à água que caminha rego fora, tropeça numa pedra, desvia-se, e cai sobre a leira seguinte, mistura-se nas fezes da passarada e demais habitantes da aldeia, e em forma de cotovelo acaba por se perder na poça, a mulher olha-se no espelho que em tentativas demoradas pesca da carteira de couro fingido, e dos olhos as barbas de milho realçando-lhe a cor infinita do olhar, toca nos lábios argamassados de vermelho com a língua, dobra a língua à maneira de trapezista de circo, entra dentro da boca, toca num dente em convalescença, o corpo fino e esguio nos desperdícios das coxas, ouve-se um Ai e certamente a perdiz, a perdiz com as patas enterradas no rego, agonia e afoga-se, e a água dissolve-a nas alavancas das pernas da mulher, a mulher geme, ensaia alguns passos e os saltos esguios de eucalipto sepultam-se na terra encharcada de suor,

O motor do cavalo cessa repentinamente e sobre a cabeça as nuvens preguiçosas das horas que se aproximam da leira, o velho desce do cavalo, e em voltas completas e de mãos na cabeça acredita que alguma coisa grave aconteceu, e pensa com o auxilio da boina às riscas que quando se embebeda esconde no bolso das calças calcinadas pelas geadas do inverno, Será cansaço?, o velho começa a comer os cigarros sem filtro e novamente a tentar perceber o amuo do cavalo a diesel, Será os filtros semeados de poeira?, não,  não pode ser Ainda ontem os limpei com o compressor!, mas que raio suplicava ele deitado na poeira, a mulher ao longe grita-lhe E não será fome?, Fome, repete ele!, sim fome, mas que porra se ainda antes de vir lhe dei de comer…, o feno verde que a bomba manual da boca puxou do tambor de duzentos litros e os vómitos e o enjoo e a final e derradeira cuspidela para o chão do diesel amargo do feno.

(continua)

publicado por Francisco Luís Fontinha às 00:41

07
Jul 11

O Douro em mágoa

No ombro o peso da enxada

Do silêncio o rio acorrentado à água

No rio ela deitada,

 

O rabelo nas máscaras do anoitecer

Desce e sobe socalcos nas entranhas do xisto

Na minha mão envelhecer

Com estas pernas eu desisto,

 

E o cheiro da uva que se engasga na neblina

O verde emagrecer da folha que da videira acorda

E do chão terra minha sina,

 

A agreste chuva miudinha

Que o corpo afoga

Do corpo dormente na vinha.

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:21

Junho 2019
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
13
14
15

17
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

subscrever feeds
Posts mais comentados
mais sobre mim
pesquisar
 
blogs SAPO