Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

15
Set 13

foto de: A&M ART and Photos

 

Excelente título para qualquer coisa com palavras...

O que pensas da paixão em dias de chuva, meu querido?

Excelente, divinal sorriso em silêncios brancos, os lenços de linho e bordados pelas tardes infindáveis das suas mãos de pergaminho, sentava-se no meu colo e abraçava-me, pedia-me

Posso beijá-lo?

Respondia timidamente que

Sim... talvez... silêncios brancos, lenços em linho, e nos lábios seda pura como lágrimas de Outono nas videiras nocturna dos socalcos virados para o rio, tudo parece existir, não existindo, as janelas de xisto

Abriam-se nas clandestinas jangadas com velas aos braços cansados nos Domingos depois do jantar, sabia-a apetecível... mas a senhora dona sobre mim absorvia todas as cores do arco-íris, comia-me a madrugada, e eu, nem com o amanhecer conseguia brincar, acariciar, nada, como se ele fosse um corpo desejado e intocável

Posso beijá-lo?

E havias as janelas de xisto suspensas nos cabelos da montanha, e havia as perdizes voando sobre os cachos ensanguentados pelo suor de quem os apanha, carrega-os, e

As janelas de xisto

E

As janelas de xisto

E

Posso beijá-lo?

E ele beijava-o e víamos o amanhecer pregado aos lábios da manhã...

E

Posso beijá-lo?

Perguntávamos-lhes se os beijos tinham açúcar, e perguntávamos-lhes se o amanhecer tinha desejos como os homens, como os homens, e como as mulheres, e as mulheres em outras mulheres, depois e os tristes homens em outros homens,

Posso beijá-lo?

E depois

As janelas de xisto

Vinham as sombras da noite anterior, entravam-nos e levavam-nos

Como crianças pela mão?

Como xistos em janelas de correr, guilhotinas simplificadas,

Quer factura?

Guilhotinas transparentes entre rochas e ruelas mergulhando a aldeia num frenesim de loucos, aviadores esqueléticos, aviadores sobrevoando imagens a preto-e-branco do teu corpo amargurado, absorvido pelo sémen nocturno dos esteios em palavras cansadas que a mão dele deixavam ficar nos lábios de outro ele, amavam-se

Amo-o, dizia-lhe entre sorrisos brancos, e no entanto hoje procura moedas de cêntimo na Calçada da Ajuda, ouve os apitos de um barco que partiu há vinte e cinco anos, para onde?

As janelas de xisto?

Beija-me,

E ele beijou,

Abraça-me...

E ele... timidamente... não abraçou... e desapareceu dentro do cacimbo como se houvesse um túnel secreto no peito dele, onde supostamente

As janelas de xisto?

Posso beijá-lo?

Que supostamente

E ele... timidamente... não acordou, e desapareceu... que supostamente lhe tinham cortado com a tesoura da dor...

O quê, o quê?

A vontade de amar, de amar como se amam as paixões envenenadas em suicídios de amêndoa...

 

(Não revisto – Ficção)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 15 de Setembro de 2013

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:10

20
Jan 12

 

 

Cinco Tintos se faz favor,

 …Cheios!

publicado por Francisco Luís Fontinha às 11:08
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19
Jan 12

A vida tem destas coisas e tanto estamos na “merda” como repentinamente pertencemos ao estrelato do céu noturno de inverno, e pensava eu que terminaria os meus dias como mendigo dos tempos modernos e que engando eu estava,

- É preciso acreditar e ter esperança,

E eu perguntava-me Acreditar em quê ou em quem?, E eu perguntava-me Ter esperança em quem ou em quê? Que a noite se vestisse de dia e o dia se travestisse de noite? Que deus descesse à terra e se ajoelhasse a meus pés e me pedisse perdão? Ou que em vez de termos um túnel encravado na serra do marão tivéssemos o mar em Trás-os-Montes com gaivotas com traineiras e petroleiros e ao final do dia o pôr-do-sol?

- Nem acredito e muito menos tenho esperança murmurava eu todas as noites antes de adormecer,

E hoje precisamente enquanto tomava café pago por um dos meus amigos porreiros li na penúltima página do jornal

- Amor, Possibilidade de encontrar um grande amor. Trabalho, faça aquilo que melhor sabe fazer.,

E por grande amor entendo talvez alguém com cento e oitenta centímetros ou duzentos centímetros de altura e com cerca de cem quilogramas de peso, e nada, nada Acredite em mim Rigorosamente nada, e as únicas coisas grandes que vi hoje resumem-se a três cisternas carregadas de vinho, Vinho?, Sim vinho

- É preciso acreditar e ter esperança,

E do bom,

E dei-me conta hoje que a melhor coisa que sei fazer é sonhar e de mendigo dos tempos modernos vou começar a vender sonhos pelas ruas da cidade, e tenho-os desde cinco euros até vinte e cinco euros e de várias cores e sabores,

- É preciso acreditar e ter esperança,

E hoje também decidi mudar de marca de cigarros, do SG Filtro vou começar a fumar Tinto, é mais barato e não prejudica os pulmões e ainda ganho uma moca inteiramente grátis,

Sim vinho

Porque nos tempos que correm só com uma grande moca é que se consegue sobreviver (acreditar e ter esperança) e se for do bom,

E do bom,

E assim, senhoras e senhores, e assim se me virem pelas ruas da cidade com uma mala suspensa no braço e recheada de sonhos, não tenham medo, aproximem-se e comprem-me um,

Obrigadinho e que se faz tarde e antes que chegue a ASAE vou dar de frosques e fumar um Tinto,

Do bom.

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:49

24
Jul 11

Solicitude magnética de um olhar

Quando o sol adormece na montanha

O rio abraçado ao mar

O rio que corre e ninguém o apanha,

 

O rio é o Douro

Engasgado nos socalcos da miséria,

 

Nas curvas dos carris cansa-se o comboio ensonado

Quase que dorme quase que engole a paisagem

Quase deitado

No leito da viagem,

 

O rio é o Douro

Engasgado nos socalcos da miséria,

 

O rio encurvado, rasgado, o rio de janela aberta

Nas paredes humedecidas do xisto do dia

O rio que me afoga na morte certa

Quando o silêncio junto à noite alumia,

 

O rio é o Douro

Engasgado nos socalcos da miséria,

 

O rio é o sangue que caminha na artéria.

publicado por Francisco Luís Fontinha às 17:57

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