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Cachimbo de Água

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Ficávamos abraçados a sentir a morte das nozes

Francisco Luís Fontinha 13 Out 13

foto de: A&M ART and Photos

 

Nunca sei como começar, nunca sei porque me sento em frente a esta secretária, nunca sei porque escrevo estas palavras, às vezes, mortas, às vezes

Sem sentido?

Às vezes perco-me na escuridão do dia e acordo na neblina da noite, às vezes escondo-me nos rochedos do medo, outras vezes

Sem sentido?

As nozes caem como papelinhos de anjos mergulhadas no desespero de que as vê cair, e depois de inertes no chão ensanguentado de cascas e pequenas ervas daninhas, os olhos da papoila dançam canções de Domingo noite fora, tínhamos uma vara de aço, ouvíamos alguém na sombra a remexer os ramos escondidos nos alicerces da montanha, tínhamos frio, tínhamos o desejo de as comer, e ouvíamos de dentro da escuridão uma mão de cansaço parti-las com uma pedra ou com a dentadura postiça,

Sem sentido...

Às vezes?

Ficávamos abraçados a sentir a morte das nozes,

Nunca sei porque o faço, nunca sei porque o comecei a fazer, no passado, muitos anos antes de aqui e agora sentir o

Telintar das nozes?

Sem sentido, escrevo-te como se fosse a minha última vontade, e a minha ultima vontade é não ter vontade nenhuma, quero ser como fui, quero ser como nunca consegui ser, caminhar sem

Sentido?

Ouvimos-las descer o talude em direcção ao rio, em queda livre, elas parecem pássaros a despedirem-se dos voos nocturnos da paixão

Conheces alguém que tenha conseguido sobreviver ao impossível amor?

Os ratos,

As ratazanas doidas comem os macacos menos loucos, e eu, eu aqui a olhar o mar estampado nas prateleiras de uma longa e distante estante recheada de

Rochedos?

Vozes e nozes,

O mar, o mar vê-se e ouve-se e alimenta-se

De ti?

Não o creio, porque o teu corpo de cascalho tombou antes de elas caírem do céu, diziam-nos que as nozes tinham saborosas palavras que juntas

Poemas?

Rochedos?

Vozes e nozes,

O mar, o mar vê-se

Sente-se...

Sentido?

Prometi e não consigo cumprir, porque as nozes não o deixam, porque as vozes não mo deixam, porque não o consigo realizar, porque não sei

Como começar?

Era uma vez...

Não, não o quero, não o consigo fazer

Porque elas caem?

As ratazanas doidas comem os macacos menos loucos, e eu, eu aqui a olhar o mar estampado nas prateleiras de uma longa e distante estante recheada de

Rochedos?

Vozes e nozes,

O mar, o mar vê-se e ouve-se e alimenta-se e beija-me, o mar ama-me, o mar acaricia-me e deixa a minha pele desejada em palavras de caserna, da despensa ouvíamos as latas de conserva revoltadas porque hoje é Domingo, porque lá fora

Caem as nozes

E as vozes,

Fazes-me um bolo de chocolate com nozes e vozes e

Palavras?

Sim, sim,

Palavras inanimadas sobre a mesa da cozinha, e depois de fazermos amor, ouvimos-las...

Caírem sobre o talude da paixão,

Rolavam como serpentes sobre os lençóis húmidos que o teu corpo de solstício de Outono deixava ficar junto à janela onde a nogueira embriagada pela tempestade gritava uivos sons de

Palavras?

Sim, sim,

Não, não o consigo fazer, despedirem-me dos versos molhados, despedirem-me das pedras vestidas de branco e dançando no centro da noite de

Domingo? Tínhamos frio, tínhamos o desejo de as comer, e ouvíamos de dentro da escuridão uma mão de cansaço parti-las com uma pedra ou com a dentadura postiça,

Sem sentido...

Às vezes?

Que às vezes nada parece fazer sentido, depois do corpo adormecer e dos ossos magoados do miolo da noz...

As palavras ejaculam sílabas de arame.

 

(não revisto – ficção)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 13 de Outubro de 2013

As vozes silenciosas da noite

Francisco Luís Fontinha 25 Jul 11

O fim de semana em pedacinhos sobre o lençol da tarde,

O teto que desce e se aninha sobre o mosaico transparente do jardim das acácias, os olhos decadentes da nuvem sobre o paiol de seiva, em silêncio, sobre a mesa, as mandibulas dos cravos poisadas na jarra virada para a janela,

 

A voz do homem,

Acorrento-me à tarde com a esperança que das ruas cresçam palhaços nos sorrisos das crianças que mendigam junto à igreja, o sol que só nasce para alguns, a injustiça, alguém chora, alguém sorri, uns com comida, outros, outros sem comida, e outros como eu que escrevem e se acham uns desgraçadinhos por não terem trabalho mas têm comida e cama para dormir, os pássaros que voam, os pássaros que não sabem voar, a chuva, e a alegria da manhã, os pássaros que não sabem voar nos dentes do canino, a minha revolta, as tripas de fora e nada posso fazer, olhar, indiferente, e esperar que morra, e caixote do lixo,

 

A voz da mulher,

Farta de ti, cansada das tuas mãos e da tua boca, dos teus braços e tudo em ti me inerva, até a tua própria sombra quando junto à noite entras em casa, imprimes um beijo na minha face e perguntas-me, Como foi o teu dia!, e eu no silêncio do candeeiro de parede Uma merda, a mesma merda de sempre, os transportes, o maldito comboio sempre engarrafado de gente e em paragens sucessivas, o rio que me acompanha até Cais de Sodré e mudo de rumo, a lagarta voadora debaixo da terra, e mais um engarrafamento de gente, o trabalho, os problemas de sempre, a merda de sempre,

 

A voz do miúdo,

O miúdo por falta de pagamento perdeu a voz,

 

A voz da professora,

Estou farta destes gajos,

 

A voz do padre,

Deus está dentro de nós, vê tudo e ouve tudo,

 

A voz das lésbicas no cansaço da noite,

As silabas mastigadas no silêncio do desejo, o poema flui sobre a pele macia do papel, os púbis que se beijam quando pela janela entra o suor humedecido da noite, os seios suspensos nas coxas, e um umbigo que se dissolve nos lábios, e uma das bocas que caminha no pescoço na procura de vogais, as letras escorrem pelas pernas, e o homem pergunta-se, E deus, que faz deus, olha-as, sorri-lhes ou fecha os olhos, ou simplesmente se esconde…

 

A voz do miúdo,

Efetuaram-me um carregamento de cinco euros, cinco euros de palavras, E isto dá para quê?, e a mulher responde-lhe que talvez dê para E onde estava ele quando o meu pai ficou desempregado e a minha mãe fugiu de casa?, ainda dá para Não me levou?!, já não dá, responde-lhe a mulher,

 

A voz do padre,

Deus pai dos céus, tende piedade de nós,

 

A voz da mulher,

Estou cansada deste marido imbecil e ordinário, e às vezes penso, E não seria melhor ter partido as duas pernas quando conheci este gajo nojento?,

 

A voz de deus,

Todos temos a nossa cruz, minha filha,

 

A voz do miúdo,

Deixou de se ouvir no saldo da noite,

 

A voz da mulher,

Cruz, meu deus?, Uma cruz bem pesada,

 

A voz das lésbicas no cansaço da noite,

Dorme bem meu amor,

 

A voz do padre,

No dia do juízo, livrai-nos senhor,

 

A voz do homem,

Cerro a janela e puxo vagarosamente o cortinado, ouço um fio de sémen que se dissipa de uma frincha da parede, a luz ténue da noite extingue-se junto ao rodapé, no soalho passeia um morcego à procura das minhas pernas, morde-me os tornozelos, de dentro de mim solta-se um Ai, e deus diz-me baixinho,

 

- Nunca deixes de acreditar, e por favor, não desistas agora…

 

Baixo os olhos e vejo o morcego preso às minhas calças de ganga, e dos finíssimos dentes escorre uma pequeníssima pétala de sangue, desaparafuso a perna e atiro-a contra a parede, e o morcego gravado nas sombras do guarda fatos, e respondo a deus, Obrigado!

 

(este texto é de ficção e não tem o intuito de ofender alguém)

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