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Cachimbo de Água

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Acorrentado à saudade

Francisco Luís Fontinha 11 Jan 13

Entravas em casa acorrentado à saudade, perguntava-te o que tens, respondias-me

Nada, tenho o mesmo que tinha ontem,

Entravas em casa acorrentado à saudade, tinhas sobre os ombros ossudos o peso melancólico das palavras tristes que viviam nas tuas mãos, carregavas na mochila pedaços de silêncio e pedras invisíveis para posteriormente utilizares nas tuas subidas mágicas à montanha dos generais envenenados pela raiva do destino, cruzavas-te com os lobos e pedias que fizessem de ti um pássaro tão grande como a chuva, e tão veloz como os barcos de papel que navegavam na banheira do segundo esquerdo, e janelas para o rio das grandes grades de ferro, as prisões incompletas de homens com o desejo de escreverem nos lábios do sol, algumas pombas desciam na alvorada e mergulhavam dentro dos restos de pão ensanguentado pelos vadios cães amorfos que deambulavam pela ilha,

Nada, tenho o mesmo que tinha ontem, Qual o meu desejo para 2013? Difícil... deixa cá ver, sei lá, talvez uma..., caramba pá só me fazes perguntas difíceis, talvez... Já sei, Já sei, Reformar-me aos quarenta e sete anos, faço-os dia vinte e três de Janeiro,

E quase nunca ouvias as locomotivas da fome poisarem em Campanhã, e quase

Nada, não quero nada, o mesmo que ontem, talvez, talvez

E quase chegavas com a mão ao tecto do incenso desejo, e quase, talvez, ontem, e quase que adormecias com o desembrulhar dos livros que trazíamos da livraria em fim de estação, saldos, e mais saldos, e quando chegavas a casa

Estamos falidos, não se vende anda, assim..., assim só nos resta queimar o resto dos livros, em frente à porta de entrada, e

E ir-mos para a Coreia do Norte, Gostava tanto amor, tanto, tanto,

Não sei, não...

E quase nunca ouvias as locomotivas da fome poisarem em Campanhã, e quase nunca utilizavas as pedras húmidas que transportavas na mochila, pedia-te urgentemente e respondias-me

Não, hoje não posso, talvez amanhã, não sei, sei, que a vaidade destrói os humanos, porque as árvores não são vaidosas? Não o sei, sinceramente, não o sei, talvez regressem as locomotivas a Campanhã e os socalcos ao meu imaginário, as bifanas da tia Alice, a cerveja meia choca, como ela, coitada, com idade para estar à lareira, e no entanto

Qual o meu desejo para 2013? Difícil... deixa cá ver, sei lá, talvez uma..., caramba pá só me fazes perguntas difíceis, talvez... Já sei, Já sei, Reformar-me aos quarenta e sete anos, faço-os dia vinte e três de Janeiro,

Entravas em casa, não falavas, nem olhavas para as flores que tínhamos em cima da mesa da cozinha, sentavas-te no sofá, e nem livros querias ler, odiavas a televisão, ligavas o rádio e sintonizavas a Antena 3, quase sempre A Prova Oral, quase sempre

Reformar-me aos quarenta e sete anos, faço-os dia vinte e três de Janeiro,

Quase sempre ficavas imóvel, envidraçado como os moveis da sala de jantar que herdamos da tua mãe, e coitada da Tia Alice às voltas com as bifanas, coitada da Tia Alice às voltas com o reumático, às voltas com as varizes e a cerveja choca, cansada, velha

E as locomotivas esperavam pelo regresso das bifanas, e coitada da Tia Alice

Qual o meu desejo para 2013? Difícil... deixa cá ver, sei lá, talvez uma..., caramba pá só me fazes perguntas difíceis, talvez... Já sei, Já sei, Reformar-me aos quarenta e sete anos, faço-os dia vinte e três de Janeiro,

Engraçado queimar-mo,

Ouvir a prova oral ainda é o que nos mantém vivos cá em casa, em falta de sopa ouvimos o Alvim e a Xana, em falta de sopa ouvimos os poemas de AL Berto na Casa Fernando Pessoa, ou

Engraçado queimar-mo,

Em falta de sopa ouvimos o projecto Wordsong (AL Berto), e

Reformar-me aos quarenta e sete anos, faço-os dia vinte e três de Janeiro,

E sentimos-nos perfeitamente bem, e de boa saúde, até que vêm as locomotivas de Campanhã e trazem com elas os socalcos do Douro, trazem o rio, trazem as enxadas com sombras de reumático e fome concentrada em pequenas latas de duzentos gramas de neblina Conceição, Tia Alice, tia Alice

Que só queria reforma-se aos quarenta e sete anos, fá-los dia vinte e três de Janeiro, mas as bifanas e a cerveja choca, e a chuva do tamanho de uma flor, e às vezes fugiam sem pagar,

Entravas em casa, não falavas, nem olhavas para as flores que tínhamos em cima da mesa da cozinha, sentavas-te no sofá, e nem livros querias ler, odiavas a televisão, ligavas o rádio e sintonizavas a Antena 3, quase sempre A Prova Oral, quase sempre

Dizias-me que para 2013 desejavas reformares-te aos quarenta e sete anos que fazias a vinte e três de Janeiro, e ficavas imóvel, envidraçado como os moveis da sala de jantar que herdamos da tua mãe, e coitada da Tia Alice às voltas com as bifanas, coitada da Tia Alice às voltas com o reumático, às voltas com as varizes e a cerveja choca, cansada, velha

Torturada pela escravidão da puta da vida.

 

(texto de ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

Alijó

...

Francisco Luís Fontinha 3 Abr 12

Este blog está a ser vasculhado desde que nasceu pelo mesmo computador há vários meses. Não sei o que procuram do outro lado do oceano em Mountain View – Califórnia – USA.

Só que é preciso ter muita paciência para ler toda a merda que escrevi até hoje…

E o computador que vasculha o meu blog deve ser muito paciente.

Aconselho Wordsong (AL Berto) uns dos melhores projetos que já ouvi até hoje.

O perfume da maré

Francisco Luís Fontinha 1 Abr 12

O meu rosto impresso no espelho da alvorada, lá fora o rosnar dos carros embebidos no perfume da maré que me olham e querem levar-me para longe, abros as asas e em pequeníssimas bicadas no mar oiço dos teus olhos os fios de luz do desejo,

A gravidade puxa-me até ao centro da terra, e os teus lábios começam a desaparecer nas migalhas do pôr-do-sol, e a criança que há em ti atravessa o arame debaixo da tenda que encobre a vida, equilibras-te ao som de Wordsong (AL Berto) e todas os espetadores mergulham no teu corpo,

- Desejo-te quando acorda o dia

Abro as asas e sacudo a areia molhada que há em mim, olho-te em passinhos de algodão sobre o arame da manhã, o meu rosto impresso no espelho da alvorada, lá fora o rosnar dos carros embebidos no perfume da maré que me olham, e debaixo de ti lágrimas de suor voam em direção a deus,

- E quando termina o dia espero-te junto à janela onde entras todas as noites, e quando termina o dia desejo-te como desejo sair desta ilha naufragada, desejo-te como desejo voar até chegar ao sol, e sem nunca olhar para trás, e sem nunca olhar para trás abraçar-te no infinito,

Eis as palavras do meu corpo quando o sangue coagula nas frestas da infância, e barcos prisioneiros no rio procuram lagostins e pastéis de bacalhau, o sangue transforma-se em vodka e brota nas prateleiras da biblioteca, todos os livros embriagados, e oiço as vozes de cada poema, e oiço o abrir da janela e dizem-me

- Hoje ela não vem,

E dizem-me que os relógios dormem nos lençóis das tuas mãos como quando acordo e percebo que estou vivo e que tu

- Hoje Desejo-te quando acorda o dia,

E percebo que estou vivo e que tu caminhas sobre o arame debaixo da tenda que encobre a vida, línguas de fogo entre fatias de pão, e todo o mel derrete-se na tua boca, e todo o mel derrete-se no meu desejo,

E todo o mel

- Abraça-me Francisco,

E todo o mel nas portadas da manhã, entre fatias de pão e sumo de laranja…

 

(texto de ficção)

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