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Cachimbo de Água

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O feitiço da Madame sem nome

Francisco Luís Fontinha 10 Jun 17

No desastre dos meus braços naufraga uma barcaça imperfeita,

Um número esquisito suspenso na ardósia da tarde,

O mar está calmo, meu amor,

Tão calmo que podia suicidar-me nele sem ser percebido pelos seus lábios,

Dormir até à próxima maré de solidão que se enrola no meu corpo,

Um ninho de pássaros nunca visto por mim

Vive no meu jardim,

Cantam, brincam… e cagam todo o pavimento…

Mas gosto deles como gosto do teu sorriso na mácula presença de “Deus”,

Um abraço, o desenlace florido dos canteiros, sabes, meu amor, amanhã não haverá flores nos teus cabelos,

E a Madame sem nome entre gritos histéricos ao pôr-do-sol…

 

Salva-me, salva-me meu amor deste cansaço provisório que escreve nas minhas mãos os “poemas perdidos”, os poemas que ninguém lê e não gosta.

No desastre dos meus braços naufraga uma barcaça imperfeita,

E não saberei se estarás cá quando eu partir,

Detesto despedidas, meu amor, junto ao Tejo…

 

O cheiro dos barcos.

 

O perfume das gaivotas em revolta,

Que dormem junto à minha janela,

Quando nos espelhos do corredor acordam os esqueletos do sofrimento,

As estrelas são o teu olhar camuflado na escuridão da feira da vaidade,

Remeto-me ao silêncio, sabes meus amor, os jardins debruçam-se nas tuas coxas de xisto, e do rio regressa a ti a hipnotizante palavra do “Adeus” …

 

O cheiro dos barcos.

 

Junto ao tejo, meu amor… junto ao tejo…

 

O feitiço da Madame sem nome.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 10 de Junho de 2017

É quase noite e vejo-me enrodilhado de palavras

Francisco Luís Fontinha 11 Abr 17

O dia vai longo, meu amor,

É quase noite e vejo-me enrodilhado de palavras órfãs que se masturbam junto à paragem do eléctrico,

Dos poucos livros que me restam apena o “fugitivo” ficou a acompanhar-me,

Dizem todos que sou louco, meu amor,

Porque gosto mais de brincar com as palavras do que jogar futebol na areia da parai, onde em criança, esquecia-me das tardes no Mussulo,

O destino vingou, das minhas mãos deixou de haver areia húmida e pedrinhas… que deitava escrupulosamente para um balde em plástico e depois enchia os bolsos de recordações,

O teu olhar, meu amor, na ausência das pálpebras incendiadas pela escuridão,

Ao longe um comboio recheado de crianças e palavras,

Barulhentas, brincalhonas como são as árvores no Outono, diariamente sinto no corpo o dardo envenenado dos teus lábios, quando sei perfeitamente que o amanhã não existirá mais…

Hoje pertenço-te…, hoje pertenço-te e pertenço-me, somos dois catetos galgando as tristes paredes de xisto da tua boca, vim de longe, segredei-te sem perceberes que eu te mentia, nem à hipotenusa consegues chegar… quanto mais a cateto…

Ou a triângulo rectângulo…

O dia vai longo, meu amor,

É quase noite nos meus olhos, e lá fora uma velha cancela geme, os pregos enferrujados, as ripas entrelaçadas num emaranhado de sombras regressadas do Além…

Roço-me no teu corpo e morro.

Abraço-te.

Sem dizer ou escrever que te amo…

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 11 de Abril de 2017

Pálpebras de xisto

Francisco Luís Fontinha 16 Mar 17

Saboreei a paixão convexa do desejo
Percorri os caminhos esconderijos do sofrimento
Como os livros que escrevi
E os que não quero escrever…
Saltei a ponte do esquecimento
Num voo frenético nunca antes alcançado
Em direcção ao mar
Em direcção ao abismo
Senti no corpo o peso do amanhecer
Senti nas mãos a enxada da vergonha
Descendo socalcos
Saltando montanhas desenhadas…
E as palavras
As palavras do sono inventando pálpebras de xisto
Como se inventam os rios
Quando cai a noite sobre a escuridão.


Francisco Luís Fontinha
16/03/17

As pedras de sofrer

Francisco Luís Fontinha 30 Jul 16

As pedras

Onde nos sentamos e descansamos

Onde alicerçamos as mãos

E escrevamos

As palavras de sofrer…

 

As pedras

Do xisto madrugar

Que o príncipe depois de se deitar

Sonha com as pedras de amar,

 

As pedras

De ler…

 

As pedras de morrer

Sufocadas pelos beijos

As pedras

Meu amor

Dançando desejos

Nas janelas de acordar,

 

As pedras

De fumar

Nas searas cansadas pelos vento…

Não sentindo o mar

Nas pedras do pensamento,

 

(As pedras

Onde nos sentamos e descansamos

Onde alicerçamos as mãos

E escrevamos

As palavras de sofrer…)

 

Das pedras do saber…

 

Francisco Luís Fontinha

sábado, 30 de Julho de 2016

Desenhos do luar adormecido

Francisco Luís Fontinha 4 Jun 15

Invento desenhos

Nas paredes negras do sonho,

Acorrento o sono aos socalcos inanimados da minha vida,

Procuro a cidade prometida,

E apenas encontro lápides em xisto

E ruas esverdeadas

Com sabor a lágrimas,

Invento desenhos

Nas paredes cinzentas dos teus lábios,

Escrevo palavras na tua pele artificial

Enquanto ainda há luar

E estrelas no céu para pintar,

 

Depois,

Olho-me no espelho da solidão,

Sou feliz sem ninguém…

Porque as pessoas à minha volta,

Irritam-me,

E sinto saudades do meu velho cão,

Sempre sorridente,

Sempre… em silêncio,

Olhava-me

E percebia nele as palavras que te escrevo,

Porque ele,

Nada me perguntava,

 

Apenas me olhava

E nada mais do que isso,

 

E nada mais do que isso…

 

Apenas me amava sem o saber.

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 4 de Junho de 2015

O sono

Francisco Luís Fontinha 20 Mar 15

Esta casa em alvorada sinfonia

o som das palavras contra os cubos de xisto

que habitam as montanhas da insónia

o sono

em suspenso

GREVE

hoje

em alvorada sinfonia

esta casa

velha

desabitada

triste e cansada...

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 20 de Março de 2015

O salivar ciúme da solidão

Francisco Luís Fontinha 8 Mar 15

Não consigo encontrar os alicerces do dia

das crateras da tua voz oiço o salivar ciúme da solidão

viver dentro de uma caixa em cartão

e a noite desaparece na carlinga do beijo

descem sobre os teus ombros os rochedos da paixão

as palavras emigram como sementes de vento

contra as ruínas do teu peito

ausente

as pessoas

os dias

as viagens sem regresso

na ponte metálica das marés de vidro

 

há na tua voz um círculo de luz

que vagueia entre o luar

e a sofrida canção da madrugada

o xisto poisa na tua mão

como se ele fosse uma rosa embalsamada

folhear os joelhos dos livros enganados

o rio em suicídio contra a montra do sofrimento

e dos teus seios

oiço...

o salivar ciúme da solidão

na cárcere

doido

 

perdi-me neste emaranhado complexo de equações

sem solução

o quadriculado papel em chamas

ardente dos lábios em fuga

e não suporto as lâminas de aço do medo

perdi-me

doido

na cárcere das ardósias clandestinas e vaidosas da tarde

a tarde...

é tarde meu amor

é tarde

quando adormeço nos teus braços.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 8 de Março de 2015

Tortura

Francisco Luís Fontinha 20 Dez 14

(desenho de Francisco Luís Fontinha)

 

 

O peso do sono quando a noite se suicida no olhar das palavras,

a metáfora inventada

que as imagens alicerçam à construção da fantasia,

regressar... nunca,

o peso do sono suspenso nos oiros plátanos da ínfima melancolia,

o sono morre como morrem as ervas daninhas das minhas veias,

em silêncio,

o peso do sono voando sobre as esplanadas de vidro,

o cansaço das fotografias entre quatro paredes de xisto,

cintilam as calamidades do infinito orgasmo de papel...

e ninguém percebe que na tua mão...

que na tua mão habitam os finíssimos cabelos do poema,

o corpo vacila no pêndulo da saudade como um círculo de luz,

esquecido nas masmorras da infância,

o peso do sono mensurável nas avenidas acabadas de projectar,

sem automóveis para conversar,

pessoas,

sombras...

casas em sonolência despedida,

eu,

transeunte iluminado pelos vapores de iodo,

mergulhado em vulcões de alegria

e... e alguns pedaços de fogo,

e o peso do sono em constante tortura... quando me visto de noite inseminada.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 20 de Dezembro de 2014

A estátua do medo

Francisco Luís Fontinha 14 Dez 14

(desenho de Francisco Luís Fontinha)

 

Sinto as tuas finíssimas lâminas de agonia

sobre os meus ombros de xisto

tenho nos versos a enxada do silêncio

e no peito a espada do cansaço

sinto as tuas lágrimas de estanho

descendo a calçada

como uma fotografia

morta

rasgada

e a noite constrói-se no teu cabelo

sempre que um relógio engasgado

adormece no pulso da insónia,

não existem imagens nas minhas mãos

tenho medo da cidade depois de se erguer a madrugada

sinto as tuas finíssimas lâminas de agonia

sinto as tuas lágrimas de estanho

nesta triste parede embriagada

pelo medo

pelo tédio...

morta

rasgada

uma algibeira sem nome

perdida na estrada

sem nome... esquecida na perpétua estátua da liberdade.

 

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 14 de Dezembro de 2014

Socalcos envenenados…

Francisco Luís Fontinha 28 Ago 14

Este xisto onde me deito

E confesso os meus sonhos invisíveis,

Esta caverna sideral com clarabóias sombreadas,

Este medo de me perder na floresta dos bichos…

E este rio…!

Este rio com sabor a saudade,

Esta vida mergulhada numa cidade

Inventada,

Este xisto,

Esta montanha recheada de vaidades,

Estes pássaros que se alimentam dos meus ossos…

E me transformam em cadáver,

 

 

Este xisto e este cansaço

Que me suspendem nos rochedos do amanhecer,

As ondas que não cessam de brincar

No meu peito de sofrer,

 

 

E este abraço,

E este xisto rosado nas pálpebras da madrugada,

Esta estrada sem saída,

Esta rua deserta com palhaços,

Este xisto onde me deito

E um trapezista louco se abraça aos meus cabelos,

Este circo,

Este circo sofrido voando nos lábios dos socalcos envenenados…

Estes homens enforcados,

Este xisto,

Este xisto derretido em bocados,

Que se alicerçam aos meus segredos…

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 28 de Agosto de 2014

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